O mundo à espera do gigante

O Banco Central da China (People’s  Bank of China, o PBoC) iniciou, na terça-feira, 11 de agosto, um movimento de desvalorização do yuan de 1,9% ante o dólar, a maior depreciação dos últimos 20 anos no país. A decisão surpreendeu o mercado global, que se encontra apreensivo quanto às estratégias futuras do BC chinês. Neste primeiro momento, a desvalorização revela que os indicadores do país estão em situação pior que a esperada.

O PBoC informou que a cotação é fixada a partir da taxa de fechamento do dia anterior. A moeda encerrou a quarta-feira, 12 de agosto, com queda de 1,6%. O objetivo é que  o câmbio venha a convergir com as taxas de mercado – fato que não ocorre há um longo período – e, assim, fique mais próximo da realidade. A depreciação chinesa foi inesperada, outro tipo de estímulo era aguardado. A medida gerou apreensão nos mercados, pairando no ar a dúvida sobre uma guerra cambial (estratégia de desvalorização da moeda para aumentar a competitividade) no futuro.

A decisão do BC Chinês de suspender a taxa fixa do yuan visa a impulsionar o crescimento a partir da balança comercial. Uma vez que a depreciação cambial favorece as exportações, ela ocasiona um forte impacto no mercado de commodities, o que afeta diretamente o Brasil.

Os efeitos decorrentes do ajuste da moeda chinesa fomentam discussões acerca da importância da demanda desse país para o mercado brasileiro. O agronegócio nacional é fortemente dependente da China. O país asiático foi responsável por 28% da receita de exportação do setor desde o começo de 2015, seguido de longe pelos 7,1% dos EUA. Segundo o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, a desvalorização do real – em torno de 50% nos últimos 12 meses – supera a do yuan, o que promove certa vantagem ao comércio nacional, pois diminui os impactos da manobra do BC Chinês.

Monteiro afirmou que programas de apoio estão sendo articulados, entre eles a abertura comercial visando a integração com outras regiões, como na recente renovação do acordo com o México, e a flexibilização regulatória para reduzir custos, como ocorreu no setor automotivo, um dos mais afetados pela desaceleração econômica brasileira.

Contudo, a China está profundamente atrelada às diversas economias ao redor do mundo, não sendo a dependência uma exclusividade do Brasil. A desvalorização da moeda chinesa estremeceu as bolsas europeias e a de Nova York, resultando na queda de diversas moedas em relação ao dólar e afetando os preços e os contratos futuros, principalmente nos setores de metais e minério de ferro. Os segmentos,  muito importantes para as obras de infraestrutura do país asiático, são diretamente influenciados pela  queda da demanda, com o enfraquecimento das importações pelo país.

Apesar da justificável preocupação dos agentes em torno da desvalorização do yuan, analistas apontam que, como sinalizado pelo próprio BC Chinês, não há indícios concretos de que a medida de ontem será uma onda continuada. Segundo eles, é necessário ficar atento para os próximos movimentos da autoridade chinesa.  Uma desvalorização de menos de 2% é, por enquanto, pouco significativa, comparativamente à sua valorização ao longo do tempo. E, também, levando-se em conta que diversas moedas de mercados emergentes se enfraqueceram recentemente.

As incertezas se acumulam acerca dos próximos movimentos do PBoC.  Qual seria a real intenção da China em promover essa medida inesperada?  Se a desvalorização do yuan for uma manobra para recuperar o crescimento chinês, fica claro que a perspectiva do país é pior que  a imaginada, deixando as grandes economias suscetíveis a novos choques dessa natureza. O mercado mundial está à espera do próximo passo da China.

 


 

Daniele Ximenes

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC.

 

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