O risco político no radar dos investidores

O cenário político brasileiro tem gerado preocupação quanto ao mercado local, influenciando a expectativa dos investidores e, consequentemente, resultando em perdas significativas para a economia do país. O Brasil se encontra numa conjuntura difícil, em que a combinação de diversos fatores negativos acaba por causar um efeito em cadeia avassalador. As inúmeras tensões políticas, os escândalos da Operação Lava-Jato, a expectativa negativa da Moody’s e os indicadores de mercado ruins são alguns dos elementos que configuram a complexa e instável situação brasileira hoje.

Pela terceira vez consecutiva no mês, o dólar fecha em alta ante o real nessa segunda-feira (20), reagindo à escalada das tensões políticas, intensificadas na semana passada pelo anúncio do rompimento com o governo do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O enfraquecimento das relações entre o governo e o PMDB indica que haverá maiores dificuldades na aprovação das medidas do ajuste fiscal- necessárias para garantir o grau de investimento do país- e a expectativa é de que o dólar continue avançando nas próximas semanas, pressionando o câmbio para cima e afetando negativamente o preço dos ativos.

Em março, no auge da instabilidade do governo, o dólar atingiu a máxima de R$3,2941 enquanto a última alta ficou em R$3,2005, com os contratos futuro para agosto avançando em 0,37%. A alta da moeda americana vem refletindo a percepção do risco político, esse que vem sendo arrastado desde os rumores de impeachment da presidente Dilma e da recente abertura de investigações de seus antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, por suposto tráfico de influência nacional e internacional a favor da empreiteira Odebrecht, essa última também alvo da Operação Lava-Jato.

Nessa semana, com o vencimento de opções e o agravamento da crise política, a bolsa brasileira apresentou grande volatilidade e o Ibovespa fechou em -1,42% (aos 51.600 pontos), se aproximando da mínima do dia -1,56% (aos 51.525 pontos). A queda do preço do petróleo- influenciada, principalmente, pelo fortalecimento do dólar antes as demais moedas- acentuaram as perdas do índice da Bovespa, com Petrobrás PN e ON com quedas de 5,35% e 6,02%, respetivamente. A commodity foi pressionada duplamente, tanto pela desconfiança dos investidores dado a instabilidade na política quanto pela vertiginosa variação de preços, que atingiu a mínima na última segunda-feira, desde 2 de abril.

Recentemente, a Standard & Poor’s (S&P), manteve o rating da Petrobrás como grau de investimento (BBB-), contudo, a expectativa da agência é negativa uma vez que a companhia ainda terá que enfrentar grandes desafios em sua gestão, como a redução do endividamento e as investigações de corrupção. Outras ações de estatais também fecharam em queda, como Banco do Brasil ON ( -2,52%) , PNB ON (-1,62%) e Eletrobrás (-2,4%), sendo essa última alvo de acusações na Justiça dos Estados Unidos dado as perdas consequentes do envolvimento na Operação Lava-Jato.

Na última quinta-feira (16), a agência de classificação de risco Moody’s enviou técnicos à Brasília para a reavaliação da nota soberana e a expectativa é de que haja corte, contudo, o grau de investimento do país ainda será mantido. No mesmo dia, em relatório, a agência afirmou que a fraqueza política, a deterioração da confiança do investidor e a alta inflação continuará a pesar sobre as empresas, pressionando diversos setores da economia doméstica. A expectativa negativa da Moody’s abre a possibilidade para novo rebaixamento no curto prazo, o que resultaria, dessa vez, na perda do grau de investimento da nota brasileira.

O Relatório Focus, divulgado segunda-feira (20) pelo Banco Central (BC), refletiu o cenário doméstico negativo, com projeções ruins para os indicadores de mercado. As instituições consultadas esperam que o PIB recue 1,70% em 2015 e avance somente 0,33% em 2016, apresentando estimativas piores em comparação com a última pesquisa. Ainda, segundo o Focus, a projeção para a inflação em 2015 piora pela 14a semana consecutiva, com previsão de alta de 9,15% para o IPCA.

As projeções de mercado seguem piorando e muitos falam em recessão econômica, com alguns indicadores já apontando estagnação, o que dificulta a retomada de fôlego no curto prazo. A perda de credibilidade do governo diminui a margem de manobra de Dilma e, consequente, dificultam a atuação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, na continuação das medidas do ajuste fiscal. Segundo Levy, o ajuste fiscal incompleto é um dos principais motivos da fraqueza econômica atual, uma vez que a incerteza quanto à duração do ajuste atrasa a tomada de decisões e, assim, diminui o investimento.

O risco político surge como o resultado da combinação do cenário local desfavorável e das expectativas negativas consequentes dessa conjuntura complexa e, muitas vezes, difícil de prever. Segundo analistas, as tensões políticas- que influenciam diretamente a confiança dos investidores- continuarão a assombrar as empresas nacionais, refletindo no mercado local e no andamento da política nacional. Evidentemente, a complexidade dos fatores políticos e de suas relações configura outro fator agravante para a previsão dos movimentos do mercado.

 

Daniele Ximenes

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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