O efeito-borboleta e os juros americanos

De acordo com a teoria do “efeito-borboleta”, o bater de asas de uma simples borboleta por aqui pode provocar um furacão lá longe, numa parte distante do planeta.  Parece loucura, mas na economia é, muitas vezes, assim. Não raro, uma decisão ou um evento num país do outro lado do mundo afeta fortemente nossos investimentos no Brasil.

A explicação está na própria dinâmica da economia global, em seus ciclos de crescimento e na conexão das finanças mundiais.

Um caso que ilustra bem essa questão e que está no foco das atenções é a iminência da elevação das taxas de juros pelo Federal Reserve, o Fed, banco central americano. A perspectiva de uma alteração na taxa básica dos Estados Unidos está mexendo com os mercados por toda a parte, inclusive no Brasil.

Afinal, como e por que isso acontece?

A taxa de juros 

Primeiro, é preciso compreender o que é a taxa de juros. Esta variável pode ser entendida como o preço do dinheiro, sua remuneração no tempo. Os agentes econômicos que conseguem juntar dinheiro (têm suas receitas maiores que suas despesas) são chamados de poupadores. Mas nem todos conseguem economizar. Aqueles que gastam mais do que recebem são os tomadores, que precisam pegar empréstimos para fechar suas contas.

Em geral, no mundo atual, é por meio das instituições financeiras que os recursos dos poupadores migram para as mãos dos tomadores. Essa transferência também pode ser feita diretamente entre as partes, como quando pegamos dinheiro com um parente.

Quando um poupador resolve “guardar” seu dinheiro em determinada instituição, ou seja, aplicá-lo num investimento qualquer, ele recebe uma remuneração pelo tempo que não vai poder dispor de seus recursos. Essa remuneração é feita com base numa taxa de juros, que, assim, engorda o capital. Quanto maior a taxa, mais interesse terão os poupadores em deixar seus recursos rendendo, aplicados.

O tomador, por sua vez, pega recursos para gastar ou investir. Só que ele tem que pagar um acréscimo para quem concedeu o empréstimo. Esse acréscimo também é calculado em cima dos juros. Se a taxa está elevada, um potencial tomador pode desistir de fazer esse empréstimo e adiar seus sonhos de consumo ou suas decisões de investimento (como construir uma nova fábrica, por exemplo).

Na economia nacional

A taxa de juros, no contexto macroeconômico, é um instrumento de política monetária.

Um governo pode decidir elevar sua taxa básica de juros a fim de inibir o consumo, em caso de pressão inflacionária. Se o dinheiro está caro, as modalidades a crédito ficam menos vantajosas. Com menos estímulo ao consumo, a pressão nos preços é menor.

Por outro lado, o empresário também adia seus investimentos quando a taxa de juros está nas alturas. Além disso, fica mais vantajoso para quem acumulou recursos aplicá-los no mercado financeiro, onde o dinheiro se multiplica sem grandes esforços, sobretudo em ativos de renda fixa (cuja variação é atrelada aos juros). É exatamente o que está acontecendo agora no Brasil.

O problema é que sem investimentos produtivos, a economia não avança, não gera emprego nem renda. A atividade empaca, desacelera.

Por isso, o governo deve ser muito hábil ao usar o instrumento dos juros, calibrando a engrenagem econômica, pesando variáveis como inflação e crescimento. E tudo isso tem um efeito também na dívida que o próprio governo contrai no mercado quando gasta mais que arrecada e tem que cobrir o rombo.

Conexão global

Como o dinheiro não tem pátria, ele pode buscar sua remuneração além das fronteiras nacionais. Assim, uma decisão do BC americano de elevar os juros dos Estados Unidos torna investimentos daquele país mais atrativos em comparação aos do resto do mundo.

Há uma mudança na correlação entre as diversas modalidades de investimentos e também nos mesmos tipos de investimentos em diferentes países.

Após um longo período de juros baixos, justamente para estimular a atividade produtiva após a crise de 2008, o governo americano, com base em dados de produção e emprego, está avaliando agora que a economia do país tomou um rumo mais consistente de crescimento. Está na hora, portanto, de retirar os estímulos dos juros baixíssimos.

O mercado espera que o Fed comece a elevar os juros dos Estados Unidos entre meados deste mês de setembro e início de dezembro. A decisão pode até não causar aquele furacão da borboleta, mas vai mexer fortemente com o fluxo de capitais pelo mundo.

Para saber mais sobre juros e investimentos, acesse o e-book da Órama sobre Renda Fixa.

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