Surfe de negócios

Há mais semelhança entre os mundos econômico e esportivo do que supõe o senso comum. Engana-se quem pensa que o ambiente de negócios é simplesmente chato e desmotivante. Assim como equivoca-se quem fantasia um cenário sempre leve e interessante para a prática de atividades físicas.

Pergunte a um diretor qual a sensação de prazer que toma conta de seu corpo quando fecha um bom contrato. Converse com um atleta e perceba de quanto ele abre mão para treinar no limite, por horas a fio, sem qualquer glamour.

O fato é que, numa análise livre de estereótipos, a rotina de um executivo tem elementos bastante similares à rotina de um desportista. Governos, empresas, profissionais e investidores podem se inspirar no universo esportivo. O surfe – que já foi tido como um esporte de vagabundos – é uma boa inspiração.

Ondas a favor

O surfista é um atleta que se prepara de antemão, procura as melhores condições para a prática do esporte e seleciona os equipamentos mais adequados, projetados por uma indústria que investe em tecnologia. É um madrugador, usa o tempo a seu favor. Ele planeja e replaneja. Por fim, entra n’água, chova ou faça sol.

O surfista não briga com o mar, respeita a força da natureza. Mas enfrenta as ondas literalmente de pé. Ele “trabalha” a massa d’água a seu favor, escolhe a direção e a velocidade necessária, ajustada. Antes de agir, observa e rema. Depois toma sua decisão. É um gerenciador de riscos.

Ganha sempre, mesmo quando não compete, pois o prazer de fazer o que faz já é sua recompensa. Tem alma pioneira e empreendedora, está sempre em busca de algo mais. Inova nas manobras radicais quando é possível, mas faz o “feijão com arroz” quando precisa.

O CEO Gabriel Medina

O atual campeão mundial de surfe, Gabriel Medina, é o primeiro brasileiro a ocupar o topo de um esporte tradicionalmente dominado por anglo saxões.  Medina tem as qualidades necessárias para ser um CEO cinco estrelas, um ministro da Fazenda, um megainvestidor. Não duvide.

Depoimentos retirados do livro “Gabriel Medina, a trajetória do primeiro campeão mundial de surfe do Brasil”, escrito pelo jornalista Tulio Brandão, reforçam a ousada afirmação do parágrafo de cima.

Selecionei algumas características e processos para fazer a leitura de como esses dois ambientes aparentemente opostos são similares. Não à toa, o esporte é um dos mais populares entre executivos.

Da disciplina ao reconhecimento

– Disciplina –  Ainda garoto, Gabriel Medina abraçou uma rigorosa rotina, quase militar, implementada por seu pai Charles Saldanha. Abriu mão de uma adolescência de farras em prol do esporte. Além do treino exaustivo, tem horário para acordar e dormir. Cuida do corpo e da alimentação. É super disciplinado.

“Não quero nenhum amigo em casa, ninguém por perto. É concentração total, só a gente.” (Charles Saldanha, sobre a concentração nos dias que antecederam a decisão do mundial de 2014)

“Se ele não tivesse disciplina, com certeza não teria tido essa evolução.” (Marcelo Baboghluian, médico de Medina)

– Metas – Medina sempre soube exatamente o que queria. Traçou metas claras e simples, o primeiro passo para alcançá-las. Depois, perseguiu com afinco.

“Pai, eu quero ser campeão mundial” (Medina, aos 11 anos)

“Tenho um novo sonho, pai. Quero ser tricampeão mundial.” (Medina, aos 20 anos, logo após conquistar o campeonato)

– Riscos – Gabriel Medina é um gerenciador de riscos. Calcula suas probabilidades ao enfrentar as ondas e não abre mão da estratégia. Às vezes acerta, às vezes não. Não existe vida sem risco. Identificar quais são e assumir alguns deles faz parte do processo de superação. Planejamento e avaliação de cenários são ferramentas poderosas nas mãos de Medina.

“Arrisquei um aéreo gigante. Achei que já tinha voltado, mas o bico entrou um pouquinho na água e perdi o controle da prancha. Na mesma bateria, quebrei uma quilha no meio da onda! Isso nunca tinha acontecido comigo.” (Medina, numa etapa na França em 2014)

“Estava dentro do tubo, mas a onda começou a quebrar rápido, a ganhar de mim. Pensei: ‘Tenho que sair de qualquer maneira.’ Vi que a onda fecharia, mas pensei muito rápido. Acelerei e, na hora certa, e arranquei para fora. Se eu demorasse mais um centésimo de segundo, não conseguiria. (Medina, sobre a onda que o classificou em Pipe)

Às vezes, eu não voltava de um aéreo e, quando eu voltava, sentia que a nota (da manobra) não era tão valorizada. Para que vou ficar me arriscando?” (Medina, sobre a mudança de postura, quando optou por fazer um surfe mais conservador).

– Técnica e desempenho – Medina conhece a fundo a técnica do surfe. Saber bem o básico é fundamental até para conseguir subverter as regras. Ele entende que deve estar sempre altamente preparado para dominar aquilo que é “dominável”. O surfista conhece seus pontos fortes e fracos, assim como os de seus adversários. É um especialista e acredita na transpiração.

“Aquela onda de Gabriel foi o momento decisivo. Ali, vi que ele tinha algo diferente dos outros garotos. Ele acabou com a onda. Não sei se outro surfista profissional conseguiria reproduzir a performance daquele garoto de 15 anos.” (Felipe Silveira, CEO da Rio Curl Brasil, sobre a onda da final no Canto do Maluf em 2009)

“Quando eu vejo que o tubo é grande, levanto o braço. Consigo perder velocidade com a mão no alto do lip (crista) e na parede. Dá uma boa brecada na prancha. Já fiz isso em Pipeline.” (Medina, sobre levantar o braço durante a manobra)

“No primeiro dia, antes da prova, estava muito frio. Gabriel saiu para surfar às 4h da manhã. Pensei: ‘Esse moleque vai ser campeão mundial’. No evento, ele parecia um daqueles surfistas de videogame, que executam manobras absurdas e não caem da prancha.” (Jaime Medina, tio, sobre o Prime de Trestles)

– Equipe – Gabriel Medina não venceu sozinho. Atletas, mesmo em esportes individuais, contam com uma equipe especializada. Ao redor do surfista, formou-se uma entourage com médico, preparador físico, nutricionista, videomaker, empresário, além da estrutura da família, sempre por perto nos bons e maus momentos. Medina confia e delega. Quando vence, divide os louros. Quando perde, supera as crises no coletivo.

“Naquele começo de ano, talvez tenha havido um excesso de otimismo e uma falta de preparação. Assumo parte da culpa, porque normalmente fico responsável pelas pranchas, que estavam fora da medida. Ele ganhou peso, e o volume da prancha não aumentou significativamente. Fomos corrigindo no decorrer do ano.” (Charles Saldanha, sobre as dificuldades de 2012)

“Todo mundo dava o prognóstico de oito a 10 semanas. E eu dizia a ele: ‘Calma, Gabriel, vamos ver isso semanalmente. Seja aplicado. Faça tudo direitinho’. Ele foi obrigado a amplificar ainda mais a sua disciplina. Deu certo.” (Marcelo Baboghluian, médico de Gabriel, sobre a recuperação da contusão de 2013)

– Dificuldades – Recentemente, diante dos maus resultados de 2015, Gabriel Medina foi o primeiro a reconhecer a adversidade: “Infelizmente, os resultados não estão aparecendo. Eu passo por uma má fase, que eu espero que acabe logo”. Depois disso, já apresentou bons resultados. Ele sabe que superar uma dificuldade, ou esperar que ela passe, exige uma série de qualidades, entre as quais a persistência. Mesmo os melhores atletas intercalam boas e más fases. Medina incorporou o hábito de avaliar em vídeo suas performances, tem agilidade para reconhecer os erros e flexibilidade para mudar, se adaptar.

“Tive outros maus resultados, mas ali percebi que não estava fazendo nada para me ajudar. Não estava com vontade, concentrado para aquele momento, como normalmente eu fazia. Vi que estava errando.” (Medina, sobre as primeiras etapas de 2013)

– Reconhecimento – Medina escreveu seu nome na história. É uma inspiração.  Nem sempre queremos uma medalha, um troféu ou um prêmio em dinheiro. Às vezes, o reconhecimento vem de um melhor desempenho, da meta alcançada, do bom trabalho realizado, da capacidade de superação, da consciência do dever cumprido.

O prazer e a paixão fazem parte de nossas realizações. Há muito em jogo quando nos levantamos da cama todos os dias de manhã para trabalhar. Não se trata somente da remuneração em dinheiro.

“Pipe foi o cenário da consagração. A tensão, a angústia, o impossível vaporizaram em ondas de alegria, entusiasmo e orgulho, compartilhadas por milhões de brasileiros, hipnotizados pelo sorriso e pelo olhar contagiante de uma estrela que acabara de nascer”. (Gustavo Kuerten, o Guga)

“Essa vitória já era esperada. Foi resultado de muito trabalho e determinação na busca de um objetivo e de um sonho. A consequência natural de raro talento e enorme paixão”. (Kelly Slater, adversário de Medina e 11 vezes campeão mundial)

Escrito por

Jornalista, bacharel em economia, professora e sócia da Doze+ Comunicação.

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