O Xadrez do FED

Os que são enxadristas, ou simplesmente gostam de xadrez (o meu caso), sabem que a abertura é crucial para se vencer a partida. Essa etapa consiste, em linhas gerais, nos dez primeiros movimentos do jogo, onde é encaminhada a estratégia do jogador. Os experts conhecem as principais aberturas e suas variantes, que são tipificadas em conservadoras e agressivas. Dependendo do adversário, o jogador saberá qual a melhor a utilizar…

Aproxima-se o momento da tão esperada inflexão da política monetária do banco central americano (FED). Em minha avaliação, muito em breve o FED adotará uma “abertura Petrov” (conservadora), elevando suas taxas básicas em 250 pontos base. Ocorrerá, finalmente, aquilo que o mercado especula desde meados de 2013 e que, segundos muitos analistas, carrega potencial para desestabilizar os mercados, tanto os de lá, quanto os de cá. Mas o que pode ocorrer de fato?

Antes de analisarmos o impacto sobre a realocação do portfólio dos investidores globais, é preciso entender como funciona a política monetária do FED, desde o imbróglio de 2008.

Para mitigar os efeitos da crise, o BC americano adquiriu uma infinidade de títulos dos bancos americanos, injetando bilhões de dólares no sistema bancário. O problema é que, pela teoria econômica, esse verdadeiro derrame de moeda traria um real risco inflacionário, no médio prazo. Assim, por conta desse temor, o FED inovou ao remunerar os depósitos voluntários dos bancos comerciais (e não somente os compulsórios, como de hábito). Dessa forma, ao colocar as taxas em 0,25% a.a., os bancos hesitariam em despejar toda essa moeda no mercado. Ademais, por causa da alta inadimplência, a ideia de deixar os dólares em caixa não era descabida, ainda mais sendo os bancos remunerados.

O efeito dessa nova forma de atuar do FED tem impactos importantes sobre alguns índices monetários. Um desses, o multiplicador do M1, pode ser aqui observado, emhttps://research.stlouisfed.org/fred2/series/MULT.

Como é possível notar, no início dos anos 2000 a média desse indicador girava em torno de 1,7 e, após a crise de 2008, vemos uma figura, em média, perto de 0,8. Tal situação ajuda a ilustrar o que vem ocorrendo no sistema bancário americano: a liquidez empoçou! Em outras palavras, os bancos americanos estão com mais de U$ 2 trilhões em caixa, sem irem a mercado. Ou seja, os recursos, que potencialmente poderiam ser emprestados, via crédito, estão parados.

Na prática, essa montanha de dólares faz a taxa de juros americana, no interbancário (como se fosse nosso CDI), ficar em zero. Assim, a elevação para 0,5% das taxas básicas terá impacto não desprezível no balanço operacional do FED, daí o cuidado da autoridade monetária em agir. A meu juízo, no entanto, não terá força suficiente para fazer desovar os dólares que estão em poder dos bancos de uma só vez, mesmo porque estará elevando o retorno dos seus encaixes (a não ser que isso mude). Outro aspecto relevante diz respeito ao mercado de títulos. Não me parece que seja do interesse do FED sair detonando papéis, afetando seus preços para baixo, como se não houvesse amanhã (para mexer com as taxas privadas).

Assim sendo, as consequências da elevação dos juros sobre o sistema bancário americano não me parecem capazes de desestabilizar o sistema financeiro, como alguns economistas temem. O problema, portanto, ficaria restrito à alocação dos ativos ao redor do planeta, mais do que um possível sacolejo no sistema bancário de lá.

A pergunta que se impõe é: o êxodo dos dólares que foram “passear” ao redor do globo para ganhar com o diferencial de taxas, e que retornarão para o “ninho”, será ou não significativo? Em outras palavras, como se comportarão os grandes fundos de investimentos americanos?

A minha aposta é que boa parte desse rearranjo por que passará o mercado ocorrerá de forma organizada, e a volatilidade se dissipará em pouco tempo, sem consequências dramáticas. O mercado já nos mostrou infinitas vezes que eventos muito antecipados não provocam grandes estragos. Mas é preciso, de qualquer forma, ficar atento.

E em relação ao nosso mercado? Creio que muitos investidores já bateram em retirada nos últimos meses, por conta da nossa situação econômica/política e pelo donwgrade da S&P. Todavia, como os juros daqui são elevadíssimos, creio que os capitais especulativos pensem duas vezes antes de baterem em retirada, por causa de 0,25%. Temo muito mais uma possível perda do grau de investimento, pela Moody’s, do que essa elevação eminente dos juros americanos.

Resumindo: a jogada do FED, em minha visão, é ir carregando o “jogo” para um empate. Assim, com o quadro atual (que se frise), minha expectativa é que a alta dos juros produza impacto apenas residual sobre o câmbio e a bolsa. A despeito de alguma volatilidade (passageira) poder acontecer, não apostaria em derretimento das cotações, como alguns investidores esperam.

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