A debacle das commodities

Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador” (dito popular)

No início de dezembro, as cotações do barril do petróleo despencaram para próximo de U$ 40, enquanto o preço do minério de ferro rompeu o importante nível psicológico dos U$ 40 por tonelada – uma retração de 80% em relação aos quase U$ 200 que atingira em 2011. O derretimento dos preços das commodities, para patamares de dez anos atrás, veio para ficar ou apenas reflete uma condição de momento?

A pergunta é absolutamente relevante dentro do ambiente econômico desafiador de recuperação que a economia mundial experimenta, após a celeuma de 2008. Só para contextualizarmos, entre os anos de 2003 e 2011, o índice CRB-metais multiplicou por cinco. Já o preço do petróleo, no mesmo período, decolou de pouco mais de U$ 20 para inacreditáveis U$ 140, o barril.

Logo após a crise, muitos analistas (inclusive alguns laureados com Nobel) afirmavam que o mundo (pós-crise) deslindaria uma nova ordem global, com a proeminência dos (até então) países periféricos. Era a famosa tese do decoupling (descolamento) dos emergentes, capitaneados pelos BRICS. Por essa teoria, a balança econômica não mais penderia, como tradicionalmente, para as chamadas economias centrais.

Em diversos artigos na mídia, manifestei absoluta descrença sobre esse novo paradigma. Meus alunos também sabem que sempre recusei essa “novidade”, uma vez que, a meu juízo, para mudarmos de forma consistente o eixo do poder econômico (da América) seriam necessários predicados que esses países não possuíam (possuem), notadamente a elevada produtividade da mão-de-obra e pesados investimentos em (novas) tecnologias de ponta. Aliás, sempre mencionei que é uma tremenda injustiça, por exemplo, não incluírem países como Coreia do Sul no ranking dos novos protagonistas.

Mas o que explicaria esse “oba-oba” nas commodities?

Sem dúvida, a forte pujança da economia chinesa, nos últimos vinte anos, contribuiu de forma sistemática para essa disparada nos preços. A China não consegue produzir nem 20% das matérias primas de que necessita e que consome. Assim, foi uma compradora contumaz ao longo dessas duas décadas, incluindo o período inicial da crise de 2008. Os efeitos mais perturbadores dessa evidência foram: i) catapultar os preços das matérias primas e ii) disseminar, mundo afora, desequilíbrios nos balanços de pagamentos.

O problema é que, obedecendo aos famosos ciclos econômicos, falta aos chineses, no momento presente, o empuxo necessário para sustentarem um crescimento de dois dígitos, como no passado recente. O provável é que a moda, agora, fique mais próxima de 6,5% (ainda assim uma boa figura). Mas esse freio de arrumação por que passa o gigante asiático traz consequências graves, como a queda recente nas cotações, motivo deste texto.

Tenho lido análises de alguns bancos de investimentos apostando em preços de óleo e minério comprimidos por muitos anos, talvez toda uma década. Não comungo dessa opinião, a despeito de acreditar que 2016 e 2017 não será um biênio favorável. Minha contrariedade se baseia exatamente pelo fato de não ter “comprado”, lá atrás, a ideia do decoupling. O que quero dizer é que se a economia global não dependerá dos BRICS (como está claro), mas sim da economia americana, será ela que ditará a recuperação consistente a partir de agora. E, para mim, essa é a boa notícia embutida na eminente alta dos juros, pelo FED.

Muitos com quem converso questionam meu ponto de vista. Ele estaria enviesado, uma vez que o mercado não derrubaria os preços de forma tão intensa agora, caso esperasse para breve uma recuperação da economia global. Explico…

De forma resumida, para mim, tais condições de excesso de oferta não se sustentarão por muito tempo, mesmo porque a famosa “mão invisível” desempenhará seu papel no ajuste. Ademais, a queda do petróleo está relacionada muito mais à questão do gás de xisto do que a fatores meramente econômicos. Os países da OPEP estão sendo pressionados pela Arábia Saudita, que deseja inviabilizar o shale gas americano, por conta de seu elevado custo de extração. Já o minério de ferro ressente-se da superabundância e, por óbvio, dessa “desaceleração” chinesa. Todavia, a demanda por aço historicamente se recupera de forma relativamente rápida quando a economia engrena. Por oportuno, cabe assinalar que, num processo de normalização da economia americana, a China também tenderia a estabilizar seu crescimento, o que é positivo.

Sob esse olhar, com o cenário que traço atualmente, a indústria global retomará sua velocidade pré-crise daqui a dois ou três anos, o que favoreceria uma retomada moderada dos preços das matérias primas. Se a Europa e o Japão ajudarem, tanto melhor.

Os mercados são idiossincráticos! Como sempre ocorre, comentem exageros para cima e para baixo nos preços. A onda de “euforismo” (euforia mais otimismo) de outrora dá vez à depressão. Porém, ambos serão passageiros. Creio que o crescimento global caminhará para perto de 4% em 2017, o que contemplará uma volta dos preços para níveis mais próximos de U$ 50-60 o barril do petróleo. Em relação ao minério de ferro, é possível que leve um pouco mais de tempo para que retornemos aos patamares de U$ 60-70 a tonelada. Porém, se a China surpreender (como já surpreendeu outras vezes), muitos vão querer voltar para o ônibus.

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