Mega Brasil

Seis números, apenas uma chance em mais de 50 milhões (precisamente, 1 em 50.063.860). Essa é a probabilidade de alguém ganhar na Mega-Sena, levando-se em consideração um sorteio honesto, sem vícios de qualquer natureza. Uma busca rápida no Google nos ensina que é bem mais provável cair um avião ou um raio sobre nossas cabeças, fazer um royal flush no pôquer ou até conhecer o amor da vida à primeira vista do que acertar as seis dezenas com uma aposta simples. Ainda assim, a loteria é considerada por milhões de brasileiros o único meio de enriquecer. Isso revela muito sobre nosso país.

O trabalhador e o empreendedor brasileiro vêm sendo massacrados por  uma carga de impostos sem o mínimo de contrapartida em infraestrutura e serviços básicos – saúde, educação, segurança e transporte, entre outros. Os salários, corroídos pela inflação, terminam antes do mês. O descortinamento de roubo público e corrupção desencorajam o povo a tentar enriquecer pelo trabalho. Vamos, então, de sorte mesmo. Com esse pano de fundo, uma chance em  50 milhões até que parece interessante… Vide as filas que se formam nas casas lotéricas, sobretudo às quartas e sábados.

Alguns episódios envolvendo a Mega-Sena são realmente simbólicos. A começar pelo valor, R$ 3,50, e a relação do brasileiro médio com o dinheiro. Se o cidadão joga duas vezes por semana, gasta R$ 28 por mês ou R$ 336 por ano. Isso sem contar com o troco das “raspadinhas”. Embaixo do colchão, sem render absolutamente nada, esse dinheiro representa quase 40% do salário mínimo atual. Poderia ser um bom complemento anual, uma espécie de bônus, um 14º salário de nós para nós mesmos.

É claro que cada um faz o que quer com o dinheiro que ganha, ninguém tem nada com isso, desde que dentro da legalidade. Loterias, bebidas, cigarros, futilidades… Mas será que, etica e moralmente, num país onde há milhões de pobres e onde o benefício básico do Bolsa Família é de R$ 77 por mês, os governos, via Caixa Econômica Federal, deveriam estimular esse tipo de gasto semanal, quase religioso para muitos? Será correto explorar a esperança nacional a partir de tão improvável sorte?

O estímulo ao jogo é enorme no site da Caixa, que administra as loterias federais desde 1962. Junto com todas as informações sobre regras e auditorias dos sorteios,  ficamos sabendo que “Pra sorte todo mundo é igual. Acredite. Aposte”. E que essa sorte pode vir da Mega-Sena, Loto Fácil, Quina, LotoMania, Timemania, Dupla Sena, Federal, Loteca, Lotogol, Instantânea. Ufa! Tem ainda bolão e aplicativo. Tudo muito fácil, para o brasileiro alcançar seus sonhos e, com trocadilho, não ficar abandonado à própria sorte.

E mais, quem aposta na Mega-Sena, por exemplo, está fazendo uma ação social, uma boa ação. Nas palavras da Caixa: “Quem joga na Mega-Sena tem milhões de motivos para apostar e milhões de brasileiros para ajudar. Parte do valor arrecadado com as apostas é repassada ao governo federal, que pode, então, realizar investimentos nas áreas de saúde, educação, segurança, cultura e esporte, beneficiando toda a população.”

O destino dos recursos arrecadados está detalhado no site. Mas a fiscalização das obras e realizações em cada uma dessas áreas já é outro departamento. Em 2014, pegaram gordas fatias do bolo o Ministério do Esporte e os Comitês Olímpico e Paralímpico Brasileiros; a Seguridade Social;  o FIES; o Fundo Nacional de Cultura; o Fundo Penitenciário Nacional e o Fundo Nacional de Saúde. Em resumo, a gente já paga um monte de impostos, e as áreas de esporte, previdência, educação, cultura, segurança e saúde levam ainda o “dindin” da sorte. Seria ótimo para todos, mas só se os serviços funcionassem pra valer.

Ok, ok, ok… Todos os parágrafos acima são muito racionais, mas muito ranzinzas também. O povo precisa de pão e circo, e, convenhamos, a loteria é o circo de alguns. Deixa, então, o cara fazer a “fezinha” dele (“fezinha” aparece sempre no diminutivo, reparem, porque o inofensivo mora no diminutivo). Mas vamos, então, ao valor dessa diversão. Por que a aposta mínima foi reajustada no ano passado em 40%? Qua-ren-ta porcento! Alguém aí recebeu um aumento dessa monta? Infelizmente, o percentual está bem próximo das altas que muitos brasileiros vão pagar agora em seus IPTUs e IPVAs. É a realidade atrapalhando o sonho de ficar milionário.

Recentemente, alguns fatos emblemáticos, como longos atrasos da Caixa na divulgação dos ganhadores, começaram a corroer a credibilidade da Mega-Sena – o que pode ser interpretado como um espelho do país. O lance mais comentado foi quando, em novembro, uma bolada saiu para uma aposta feita em Brasília, numa loteria cujo sócio teria, coincidentemente, o mesmo sobrenome de um investigado pela Lava Jato.

Para coroar, um episódio curioso envolvendo a Mega da Virada exemplifica o desrespeito a que os consumidores brasileiros são submetidos em seu cotidiano: o Procon Estadual do Rio autuou a Caixa por publicidade enganosa. Isso porque, nos cartazes publicitários, o prêmio anunciado era de mais de R$ 280 milhões, mas o valor distribuído foi de R$ 246 milhões. A questão do Procon é tentar entender o porquê de um erro de mais de 12% na estimativa oficial. Além disso, apenas letras miúdas informavam ao apostador que o valor de R$ 280 milhões era uma estimativa.

No mais, as loterias podem abrir ainda longas discussões sobre, por exemplo, a legalização de bingos, cassinos ou até o jogo do bicho. O tema é polêmico, já que no Brasil os jogos de azar são um monópolio estatal.

Tudo isso pode parecer conspiratório demais, não fosse este o país dos Anões do Orçamento. Para quem não se lembra, foi um escândalo de desvio de dinheiro público no início da década de 1990, com direito a CPI, renúncias, cassações e, infelizmente,  vários crimes que estamos acostumados a ler todos os dias nos jornais. Na ocasião, um dos deputados envolvidos deu uma justificativa antológica para seu alto padrão de vida, dizendo ter ganho na loteria dezenas de vezes. Extrema sorte a dele. Azar o nosso.

Escrito por

Jornalista, bacharel em economia, professora e sócia da Doze+ Comunicação.

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