Rio 2016: apertaram um botão e ligaram as pessoas

Além do desempenho da Seleção masculina de futebol, quanto problemas você é capaz de enumerar nestas Olimpíadas?

Num país em desenvolvimento como o Brasil, representado pelo Rio de Janeiro neste agosto, sobram questões sérias nas áreas de educação, saúde, segurança, saneamento, entre outras. Isso sem falar no delicado momento político, na corrupção teimosa e na crise econômica.

Todo esse quadro estrutural, obviamente, se reflete na organização de um megaevento, do porte dos Jogos. Logo, é facílimo encontrar e apontar erros, equívocos e transtornos. Reclamar vira obrigação cívica. E quem procurar defeitos vai achar: a insegurança não acabou, a mobilidade não melhorou, o rombo é maior do que o esperado etc, etc, etc.

Em qualquer experiência profissional ou pessoal, é sempre louvável tentar entender onde erramos, para corrigir rotas e evoluir em situações futuras. Por outro lado (tarefa menos difundida), é importante detectar também os acertos, que são, afinal de contas, as sementes de novas situações positivas. São inspiradores e se transformam em vantagens competitivas, valores únicos.

Não à toa, o que funcionou e encantou na cerimônia de abertura das Olimpíadas não é uma novidade. É o mesmo, por exemplo, que acontece todos os anos nos barracões das escolas de samba ou na praia de Copacabana em 31 de dezembro. São festas enormes, incríveis, que poderiam beirar o caos. Só que não… Acontecem esplendorosamente. Ano após ano.

Muitos jornais estrangeiros reconhecerem isso e destacaram a beleza da cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio2016, do último dia 5, com adjetivos e títulos enaltecedores, entre os quais: “Simples e elegante” (The Guardian); “Uma festa de música, cores e esporte no Rio de Janeiro, à altura da cidade maravilhosa, com ritmo e beleza” (Clarín); “Você vê que as fantasias e o cenário não são tão luxuosos como os de outras cerimônias, mas isto realmente não importa quando você tem uma energia como esta” (NYT); “Rio, pelo menos por uma noite, está fazendo o que faz de melhor” (Washington Post); “Espetacular, espetacular, espetacular” (La Tercera).

O melhor deles, em minha opinião, veio do Reino Unido. Disse assim o Telegraph: “É como se alguém tivesse apertado o botão e ligado as pessoas. De repente, tudo é esplêndido.”
É isso! As pessoas são a chave. Seja com as festas típicas ou com as medalhas de ouro conseguidas heroicamente a fórceps nos Jogos (num país com incentivo zero ao esporte amador). Ou até em momentos críticos, de tragédias naturais, quando a solidariedade se alastra e se impõe.

Na economia, não é diferente. Foi assim, por exemplo, no Plano Real, que uniu o país em torno do projeto de acabar com inflação, em 1994 – lembrando que o IPCA havia passado de 2470% em 1993. E, por que não?, pode ser assim agora, na hora em que é preciso reconstruir um país livre de corrupção e com uma economia sólida, sustentável. Temos recursos para tal. E a vontade vem do povo.

Não foram as danças, as músicas nem as mensagens ambientais as grandes vedetes daquela noite histórica no Maracanã. Tampouco foi o balanço de Gisele Bündchen ou a emoção de Vanderlei Cordeiro de Lima. O que a cerimônia de abertura das Olimpíadas nos deu de melhor foi a confirmação da capacidade que o brasileiro tem de realizar qualquer coisa, independentemente de seus governantes ou da conjuntura desfavorável.

Há quem diga que aqui tudo dá certo em cima da hora, porque Deus é brasileiro, mas não é bem assim. As coisas funcionam porque há profissionais por trás. Não há jeitinho nem milagre, há simplesmente esforço e trabalho. Não há nada que 200 milhões de pessoas não sejam capazes de fazer se estiverem voltadas para um objetivo comum. Este pode ser o verdadeiro legado olímpico.
(Mas, atenção, isso não isenta Neymar & Cia…)

Escrito por

Jornalista, bacharel em economia, professora e sócia da Doze+ Comunicação.

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