O pacificador

Na década de 1980, um dos quadros de maior sucesso na TV brasileira era o “Qual é a música?”, dentro do programa dominical de Silvio Santos. Nele, dois cantore(a)s de renome competiam para tentar identificar a maior quantidade de músicas. A disputa era dividida em quatro etapas, sendo a mais interessante aquela onde o apresentador dava uma pista ao competidor sobre o título da música, e esse precisava identificá-la com uma quantidade máxima de sete notas de piano. O clímax era quando Silvio Santos perguntava: “Pianista José, com uma nota, qual é a música?”.

Identificar uma música com uma única nota de piano é, sem dúvida, um enorme desafio. Mas, para quem tem bom ouvido, se ouvi-la algumas vezes, junto com uma boa pista, eventualmente consegue adivinhar.

Nos últimos dois anos, virei uma espécie de “pianista José” dos escribas do mercado financeiro. Bato na mesma tecla, em meus artigos, tentando convencer os que leem que o cenário atual é gravíssimo. Então, para não perder o hábito, escrevo mais uma vez sobre o mesmo tema: o país está irremediavelmente rachado! E, se não revertermos essa situação em breve, estaremos condenados a dias difíceis.

O radicalismo que tomou conta da sociedade brasileira, fruto do processo de impedimento da ex-presidente Dilma, selou esse clima hostil, de arquibancada. O impeachment radicalizou definitivamente o estresse, trazendo de volta, para as ruas de SP, os black blocs, de sombria memória. Uma nova onda de quebra-quebra, de polarização extremada, como aquelas de 2013 e 2014, não contribuirá em nada para resolvermos os enormes desafios que o país tem pela frente e vai adensar as diferenças, tornando-as intransponíveis. Manifestações pacíficas são normais. Violência jamais!

Estou convencido de que precisamos urgentemente de um pacificador. O problema é que a maioria dos analistas políticos (não sou um deles) não enxerga Michel Temer como tal. E, para piorar, os aliados de Dilma o veem como um traidor, alguém que liderou um motim que destituiu a presidente eleita. Como essa parcela da população é significativa, creio que Temer terá dificuldades de aprovar as reformas macroeconômicas de que o país precisa, pois, mesmo que tenha força no Congresso, essa parcela da sociedade pressionará contrariamente.

A PEC dos gastos, reformas da previdência e trabalhista são imperativas para que a economia volte a crescer e o Banco Central possa reduzir a taxa de juro, o que ajudaria na melhora da relação dívida/PIB, que caminha para 75%. Todavia, sem um grupo que possa conduzir harmonicamente essas propostas espinhosas, não consigo crer em aprovações contundentes, até porque temos uma eleição para prefeito daqui a poucas semanas. O problema é que arremedos de reformas não nos tirarão do atoleiro em que nos metemos. Corre-se o risco, inclusive, de ser pior, pois Temer pode, à lá Sarney, sugerir uma travessia até 2018.

É evidente que uma opção natural para pacificar o país seria a eleição presidencial, como em qualquer democracia madura. Meu receio, contudo, é que, se os ânimos continuarem exacerbados (como estão), o escrutínio de 2018 será mais uma vez plebiscitário, um “nós contra eles”, com boas chances de as “coisas” piorarem.

Espero, sinceramente, que o bom senso impere e nossos políticos possam sublimar em prol da nação. Torço para que a paz seja reestabelecida! Que as diferenças políticas sejam respeitadas e que as divergências sejam debatidas no campo das ideias e não no de batalha.

Por fim, não desejo ficar como o pianista de uma nota só, eternamente. Quando se vira chato, ninguém lhe ouve. Nem as dicas que você dá são aproveitadas.

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