A nova onda

Não é somente o mar e a vida que vêm em ondas, como canta Lulu Santos em sua clássica “Como uma onda”. Também a globalização vem em vagas, às vezes vagalhões, como, agora, com a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Vivemos dias complexos e, de alguma forma, a compreensão não é trivial. O que a eleição norte-americana nos mostrou, em minha análise, é algo que já vem acontecendo faz algum tempo: Uma globalização apolítica.

Mencionei esse meu pensamento semana passada numa aula. Se Trump ganhar (disse eu), é a confirmação desse cenário, de que as pessoas estão fartas dos políticos “tradicionais”. Um aluno, espirituoso, fez um trocadilho, dizendo que é a “globalização apocalíptica” (risos gerais). A vitória do magnata bufão, host do famoso programa televisivo “O Aprendiz”, um outsider, que jamais teve um cargo público (muito menos foi congressista), será, efetivamente, o prenúncio de um apocalipse? Nem tanto!

O que emerge das urnas americanas é incontestável: Estamos diante de uma guinada da esquerda para a direita, em várias partes do mundo. Apesar de não gostar desses rótulos desgastados, não dá mais para usar eufemismos de que há um “centro-isso” ou “centro-aquilo”. São evidências, e não tendências. Aqui mesmo, no Brasil, as eleições municipais mostraram esse desencanto geral, com expressiva abstenção dos eleitores e triunfos inesperados, como o de João Dória, em SP.

Voltando ao pleito de lá, Trump é a antítese do politicamente correto. Impregnou o debate com ideias radicais e preconceituosas. Sua oponente mais parecia uma Pollyanna, que sonha com um lugar onde o bom mocismo deve prevalecer e que sem união não lograremos êxito. O discurso da democrata era de derrubar muros e não de levantá-los, como seu rival defendeu. O incrível é que, mesmo com teses xenófobas e machistas, muitas mulheres e hispânicos votaram vermelho. Parece loucura! Talvez seja. Por quê?

Como lido diariamente com a juventude, tenho uma visão de que a maior parte dela está vivendo numa espécie de mundo paralelo, como avatares. As redes sociais e a internet provocaram um fenômeno interessante nos últimos anos, já que há uma benéfica difusão de informações, o que é muito positivo (contribui na disseminação do conhecimento). Todavia, há um outro aspecto importante: Eles vivem em “tribos” com as quais se identificam. Assim, absorvem conhecimento restrito, influenciado pelos seus “mentores” (sites, blogs, grupos de facebook), o que acaba os conduzindo, de certa maneira, para extremismos. Muitos, inclusive, estão se alienando da política, o que em parte explica essa “new wave”.

A vitória de Donald Trump traz muitas interrogações, que perpassam desde questões econômicas à políticas. Como ele não tinha, verdadeiramente, um plano de governo, o que os mercados vão se perguntar no day after é: Como lidará com o vizinho, México? Como será a relação com Putin, outrora antagonista de Obama (dor de cabeça no imbróglio Síria)? Como será o trânsito com seus parceiros de Otan, que não morrem de amores pelo russo? Vai bater de frente, como prometeu, com a China, ou foi apenas uma retórica de campanha? Trancará as fronteiras ou fingirá que não está vendo a entrada dos que defenestrou? Como sou pragmático, pularei essas interrogações e me concentrarei na política externa e no FED, minhas maiores preocupações.

O diagnóstico da equipe de Trump me parece equivocado em relação aos problemas de fora. Por exemplo, não é a China o inimigo, mas sim a Ásia (no geral). Mas colocar a culpa no chinês pelo desemprego americano caiu como uma luva, para atrair o voto do descontente com a política de Obama. Não tenho dúvidas que a relação com o mundo será o maior desafio (pelo menos incialmente).
Já em relação ao FED, o republicano disparou artilharia pesada contra a política monetária de Janet Yellen, acusando-a de inflar uma nova bolha de ativos (os índices americanos estão nos píncaros), com sua política de juro extremamente baixo. Vai prosseguir na crítica ou contemporizará? E se Yellen estressar e resolver “pular do barco”? Seria muito ruim.

Nós, que trabalhamos com mercados financeiros, olhamos muito para o hoje e para o sobe-e-desce das cotações. Sugiro que olhemos para daqui a alguns anos, para tentarmos inferir como as mudanças, que essa nova onda da globalização traz a reboque, vão impactar sobre nosso futuro.

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