CEGUEIRA OU DOPING?

Rates probably need to rise gradually over time”, Janet Yellen – Presidente do FED

Na reunião de fevereiro, do banco central americano, a mensagem da presidente da instituição foi a de que as taxas de juros por lá provavelmente subirão. Os mercados financeiros, no entanto, se apegaram ao advérbio, grifado na frase acima.

Nos últimos dez anos, o mundo financeiro está inebriado, com as taxas de juros próximas de zero (ou até negativas) praticadas pelos principais bancos centrais, pós-crise de 2008. O quantitative easing (em dosagem paquidérmica) adotado pelo FED, BOJ e BCE, acabou anestesiando o bom senso dos agentes econômicos, que agora se agarram às palavras que lhes podem ser favoráveis, enquanto esperam os sinais de que a mudança ocorra. Será que não estão vendo que a mudança já está em curso?

Na verdade, minha percepção é que estamos todos dopados. Um mundo com excessiva liquidez não é viável, no médio prazo, sem que surjam consequências nefastas. A despeito das novas roupagens de teoria monetária, minhas cãs impedem que raciocine como uma situação trivial. Essa avalanche de moeda, despejada pelos BCs, não é saudável, e a saída do status vigente será extremamente complexa, de difícil operacionalização por parte dos mesmos. Ademais, se considerarmos que a trumponomics pode adicionar gasolina no fogo, o que me vem à cabeça, como proxy, é a postura do FED no início da década de 1980, quando o então presidente da instituição, Paul Volcker, radicalizou a política monetária, para combater a inflação.

Minha crença é de que nem o FED sabe, ao certo, como sair dessa cilada em que se meteu. Logo, o discurso precisa ser, necessariamente, de adoção de gradualismo, pois o tratamento é similar ao ministrado a um dependente químico. Serão necessários anos para que os mercados e agentes em geral se “limpem” dessa overdose de juro zero.

A verdade é que o potencial de desestabilização da economia global é devastador, quando a politica monetária americana se normalizar. Os fluxos de capitais serão fortemente atingidos, e alguns países serão duramente afetados. Assim, a condução dessa reversão terá de ocorrer em doses homeopáticas. Não dá pra ser à lá Volcker.

Esse é um dos pontos nevrálgicos de 2017. Os países emergentes precisam estar preparados para essa mudança, mesmo que gradual. O Brasil, por exemplo, precisa perseverar no dever de casa. O ajuste fiscal é imperativo, e não se pode tergiversar. Precisamos, por exemplo, fazer uma reforma da previdência de verdade. Lembremo-nos que já há um grupo de deputados, da base governista de Temer, propondo alterações significativas na proposta original do executivo. Isso não é bom!

Resumindo, uma elevação do juro americano, ao longo deste ano e de 2018, é favas contadas. A intensidade e a velocidade ainda são incógnitas. Mas, independentemente delas, o vetor já se sabe: é para cima. Se os mercados financeiros querem continuar dopados, na crença de que mais alguns poucos meses dar-lhe-ão um ganho adicional, paciência…

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