China: dívida e expectativas de crescimento

Durante o governo de Mao Tse-Tung, a China se inspirou no sistema socialista soviético, de forma que o Estado chinês controlava todos os meios de produção existentes no país. Contando com o apoio soviético, o líder investiu na indústria de base, infraestrutura e defesa, deixando claro as intenções de controlar a economia e a política nacionais. Apesar dessas intenções, Mao enfrentou dificuldades com o modelo rígido socialista, chegando a ser criticado por muitos chineses, e se utilizou de medidas totalitárias para manter seus ideais, enquanto o país continuava obtendo uma baixa produtividade na economia.

Com a morte de Mao Tse-Tung, em 1976, Deng Xiaoping passou a governar o país e traçou projetos para a recuperação econômica da China, deixando clara sua intenção de investir em tecnologia. Deng Xiaoping observava o crescimento econômico no Japão e nos Tigres Asiáticos, o que o influenciou a realizar algumas privatizações e dar início à entrada controlada do capital estrangeiro no país. Apesar de também ser caracterizado como um governo totalitário, começou a fazer, em parte, uma abertura econômica da China, que passou, então, a ser reconhecida como um país socialista de mercado, onde o Estado ainda agia como um planejador central, mas agora com a presença de empresas estrangeiras.

A partir de então, o país asiático começou a receber uma série de investimentos e experimentou um crescimento surpreendente a partir dos anos 1990. No início das reformas, as autoridades chinesas estimavam que o PIB quintuplicasse até o ano de 2000. Contudo, o feito foi atingido 5 anos antes do projetado. O país registrou crescimento de 2 dígitos durante vários anos, o que levou a China ao patamar de segunda maior economia mundial e a que mais crescia com o decorrer dos anos.

Nos últimos anos, a potência oriental vem tendo uma desaceleração no seu crescimento, de forma que, em 2016, seu PIB cresceu 6,7%, ante 6,9% no ano anterior – tendo sido o mais baixo em 25 anos. Em reunião realizada no início de março de 2017, o primeiro-ministro Li Keqiang disse, em seu discurso, que a China reduziria seu alvo anual de crescimento para cerca de 6,5%, o que reforça a desaceleração do crescimento chinês. Mas, por que a segunda maior economia mundial vem experimentando essa redução anual do seu avanço?

Talvez a melhor resposta seja que o mundo começou a perceber que o crescimento chinês é insustentável, se pensarmos a longo prazo. A começar pelo boom do crescimento imobiliário. O governo chinês investiu, nesses anos de expansão econômica, na criação de diversas cidades capazes de abrigar milhares de pessoas. Contudo, a dificuldade em estimular os chineses a se mudarem para tais cidades fez com que ficassem conhecidas como “cidades fantasmas”. Para se ter ideia do tamanho do investimento chinês em infraestrutura como um todo, o uso de cimento pela China entre 2011 e 2013 foi maior do que pelos EUA em todo o século XX.

Para incentivar essas construções, a China possui um sistema em que facilita a expansão do crédito. O grande problema é que, com um possível baixo retorno desses investimentos, cresce a possibilidade de calote. Dessa forma, alguns especialistas começam a atentar para a existência de uma bolha imobiliária no país. O total da dívida chinesa chegou a atingir 250% do PIB. Estima-se que, caso o país não passe por reformas estruturais maciças, a dívida em relação ao PIB crescerá para 300% até 2019. É um número muito alto, ainda mais se tratando da segunda maior economia mundial, com impacto direto na economia de outros países.

É por isso que o crescimento chinês vem diminuindo a cada ano. Com os temores de uma crise imobiliária e o risco-país aumentando, muitas empresas vêm retirando seu capital da China e procurando outros países em busca de melhores retornos. Assim, a demanda chinesa por diversos produtos, inclusive por algumas commodities, vem diminuindo, o que contribui para uma queda no preço das mesmas. Além disso, o país vem reduzindo sua produção de aço desde o ano passado, numa tentativa do governo de diminuir a poluição no país. A soma desses acontecimentos contribuiu para surpresas nos dados da balança comercial, divulgados no dia 08 de março: as exportações recuaram 1,2%, ante uma projeção de aumento em 12,3%.

Diante disso, surgem diversas questões quanto à estabilidade da economia chinesa. O fato é que, se o governo chinês quiser que o país continue crescendo no futuro, terá que realizar algumas reformas importantes desde já, mesmo que ocasionem um crescimento menor no curto prazo. A começar por seu sistema financeiro, onde o aumento excessivo de crédito poderá causar uma crise profunda no país.

No mais, uma maior abertura econômica, com menos intervenção estatal, já é vista por muitos economistas como um bom motivo para atrair de volta as empresas que têm deixado o país, o que possibilitaria retomar o crescimento de forma sustentável e durável.  Para isso, os especialistas afirmam que o governo deveria abandonar o sistema estimulante aos gastos governamentais, adotar uma política de redução tributária e abandonar uma possível política cambial com a intenção de desvalorizar o yuan para facilitar suas exportações. A conferir.

 

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Pedro Guerra

Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Análise Macroeconômica do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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