Rússia: passado, presente e futuro

A história russa é uma das mais conturbadas. Desde a dissolução da União Soviética no final de 1991, o maior país do mundo em dimensões territoriais passou por uma série de altos e baixos em relação à economia e à política, e é hoje um grande player mundial. Todavia, apesar do crescimento eufórico nos oito primeiros anos do milênio, o cenário da Rússia mudou um pouco. Além de conflitos políticos com boa parte do mundo, o cenário econômico também pesa. Muitos analistas já especulam uma piora, supondo até uma crise no nível da que ocorreu em 1998, e isso vem gerando uma série de incertezas sobre a nação.

Logo após a dissolução, a transição do comunismo para o capitalismo afetou bem o país, com indústrias um tanto quanto ultrapassadas em relação ao resto do mundo. A Rússia não tinha mais paridade de competição contra outras potências mundiais, deixando-a ainda mais dependente da exportação de combustíveis e matérias-primas. Para dificultar o cenário, em 1997 uma crise afetava a Ásia, tornando o crédito internacional mais caro e aumentando os juros da dívida externa russa. Por fim, ainda em razão da crise, o preço do petróleo e de outros combustíveis sofreram uma severa queda, afetando de forma agressiva a receita do país. Tudo isso resultou na declaração de moratória, o calote nas dívidas internacionais por parte da Rússia, em 1998. Foi a mais profunda recessão no país, o PIB caiu quase 40% e a produção industrial se retraiu em mais de 50%.

Os efeitos colaterais da crise começaram a ser sentidos rapidamente. Os salários baixos e o alto desemprego fizeram o contrabando de produtos crescer, gerando as condições ideais para o surgimento das máfias. Após um ano do início da crise, em 1999, o então presidente Boris Yeltsin renunciou, dando espaço para o ex-agente da KGB Vladmir Putin assumir o cargo, começando, então, a recuperação do país.

Entre o período de 1999 e 2003, a economia ficou marcada pela cooperação entre as empresas e o governo, gerando uma alta atividade industrial. Os resultados foram um tanto quanto satisfatórios. Em 2000, o PIB cresceu 10% e, entre 2001 e 2004, 8,1% por ano. Contudo, em 2003 o Estado se tornou menos liberal na economia, reascendendo o conflito entre empresas e governo. O ano foi marcado pela prisão dos multibilionários Mikhail Khodorkovski e Platon Lebedev, acusados de sonegação e corrupção. A partir desse ano, até 2008, com um Estado menos liberal, a Rússia viu seu PIB desacelerar. Mesmo assim, com o preço do barril de petróleo alto e o crédito internacional barato, mantiveram-se os bons resultados, com o PIB crescendo, em média, 6,8% ao ano entre 2005 e 2008, e a força de trabalho aumentando quase 2% ao ano.

Após a crise de 2008, a Rússia não se recuperou tão bem e, em 2014, o país entrou em recessão. A queda no preço do barril de petróleo influenciou na queda do produto interno bruto do país. Porém, o que mais pesou foram as decisões políticas da Rússia. Após as investidas militares sobre a Ucrânia para a anexação da região da Crimeia, tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia aplicaram severas sanções ao país, afetando uma de suas principais fontes de renda: a exportação de combustíveis, minérios e matérias-primas.

Em meio à recessão, o PIB da Rússia em 2016 foi de US$1,397 trilhão, variando -1,2% em relação ao período anterior. Apesar de outros dados serem bons, como a inflação de 4,6%, desemprego de 5,6% e a relação dívida/PIB de 17,7%, a Rússia pode vir a enfrentar problemas. Atualmente, o país ainda é extremamente dependente da exportação de combustíveis e matérias-primas. Paládio e platina são metais que o país exporta em alta quantidade, sendo o maior e o segundo maior exportador de cada um deles, respectivamente. Petróleo e gás natural são outras fortes fontes de receitas, sendo a segunda também uma importante moeda de negociação para com a União Europeia, dado que a maior parte do gás natural ou dos gasodutos que abastecem a UE vem ou passa pela Rússia. Como exemplo, podemos citar o ocorrido quando a União Europeia se colocou contra o país no caso das investidas na Crimeia e, como resposta, o governo russo ameaçou cortar o fornecimento de gás natural para o continente antes do inverno, quando a demanda para o mesmo é maior, visando o aquecimento.

A dependência pode ser o maior vilão para o país nos próximos anos. O paládio e a platina, que ocupam a 2ª parte mais relevante para o PIB russo, não apresentam previsões boas para o futuro. Esses materiais, usados principalmente na fabricação de catalisadores para carros, são usados termômetros da economia mundial. Com o mundo economicamente mais forte, a demanda por carros e, consequentemente, por platina e paládio aumentam. Todavia, os conflitos políticos internos e externos que vêm assolando o mundo e gerando incertezas, além da crise das montadoras, como a que ocorreu na Alemanha e França, são indicadores de uma possível redução brusca na demanda por carros, afetando negativamente o preço dos metais.

O petróleo e o gás natural também seguem a mesma perspectiva negativa. Com o aumento cada vez maior da produção dos Estados Unidos e a falta de cumprimento de certas partes no acordo da OPEP, a previsão é de um cenário bearish para o produto, levando o preço do gás natural também para baixo, visando manter a competitividade dos preços. Sendo assim, é uma preocupação para a receita do país, que tem reservas de petróleo na Sibéria e é um forte fornecedor de gás para União Europeia.

Os problemas russos podem não ser só econômicos, o cenário político é um tanto quanto conturbado. Em relação aos Estados Unidos, parece que ambos viraram fortes parceiros. Desde a eleição do Trump, os países têm conversado mais e, mesmo apesar de uma queda nesse mês, as reservas de dólar na Rússia vêm subindo periodicamente, marcando hoje a quantia de US$ 391,4 bilhões, o que mostra a confiança do país nos EUA. Contudo, as relações com seus países vizinhos da Europa não são das melhores. Desde as investidas militares no leste europeu, as sanções da União Europeia pelas operações na Ucrânia e os interesses russos de mais anexações pela região só resultaram em um aumento das tensões.

A Rússia é um país extremamente dependente da exportação de bens minerais e energéticos, que têm previsões negativas. No mais, tem sua classe mais rica como uma forte investidora na área imobiliária europeia. O país vem sofrendo com movimentos separatistas e protecionistas e tem relações políticas e militares extramente voláteis com as maiores potências do mundo. Tudo isso pode contribuir para resultados não muito positivos. O medo de o cenário de 1998 voltar, talvez de forma mais intensa, já começa a assolar alguns russos, gerando um forte clima de incertezas num dos principais países do mundo.

 

 

Gustavo Kronemberger: Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Mesa de Operações do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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