O novo horizonte do FED

Desde o início da crise econômica, no fim de 2007, o Fed (Federal Reserve) vem injetando uma quantidade de dinheiro astronômica na economia norte-americana. Principalmente, pelo seu programa de LSAP (largue-escale asset purchase), que, em sua essência, representa a “facilidade de crédito” (em inglês, credit easing, mais conhecido como C.E.). É, basicamente, a redução dos custos dos empréstimos privados, comprando diretamente dívidas emitidas por empresas privadas, em vez de dívidas do governo (como é mais comum). Porém, como não é intenção do Fed segurar dívidas privadas para sempre, o mesmo teria que liquidar as mesmas em algum momento. Quando (e como) o Fed liquidará isto?

A resposta veio na quarta-feira, dia 5 de abril, no Fed Minutes, onde os membros do BC americano disseram que a liquidação dos US$ 4,5 trilhões (montante maior que todos os PIBs mundiais, perdendo só para os próprios EUA e a China) que o Fed possui em ativos, deve começar a ocorrer ainda este ano, deixando no ar a seguinte pergunta: como tal atitude impactará os EUA, o resto do mundo e em especial a própria política de hike (aumento na meta da taxa de juros) do Fed?

Antes de falar dos efeitos, é extremamente importante explicar como a liquidação deve acontecer, dado que, se for feita de maneira brusca, terá efeitos em todos os mercados e pode gerar recessão. Portanto, é esperado que a liquidação seja feita em partes, visando estressar o mercado o mínimo possível (principalmente com tantos eventos geopolíticos acontecendo simultaneamente, o que já causa tensão).

Certamente, o Fed colocará em prática políticas que visam a minimizar o risco acerca da liquidação desses ativos. O objeto é não gerar (ainda mais) volatilidade no mercado, de acordo com David J. Stockton, ex-Diretor da Divisão de Research and Statistics do Fed. Assim, a autoridade monetária deve encolher de pouco em pouco sua quantidade de ativos supracitada (antes do período de maturação, claramente), em lotes e em um período de tempo definidos pelo órgão. Alguns analistas pressupõem que o processo como um todo pode levar décadas, visto que o Fed poderia voltar a comprar assets em períodos de recessão.

Outro detalhe importante é o fato de o mandato de Janet Yellen expirar em fevereiro de 2018. Muitos esperam que o presidente Donald Trump não vai renomear Yellen para tal cargo no início do próximo ano, o que significa que a mesma estaria, além de tudo, lutando para deixar seu legado (ao menos em parte) nos próximos meses. Caso tudo dê certo, Yellen será a primeira líder de bancos centrais que teve sucesso em diminuir sua taxa a 0% (ou abaixo), visando a facilitação do crédito, e que conseguiu começar o processo de normalização pós-crise, deixando então um grande “presente” para seu sucessor.

Para o programa de hike do Fed, num cenário hawkish, as expectativas se tornam nebulosas com a expectativa da liquidação dos ativos. De acordo com Yellen, o Fed deve “segurar o acelerador” um pouco, visando principalmente não gerar ainda mais volatilidade para o mercado e não se afobar. Yellen defende que a inflação norte-americana (Core CPI) deve chegar na meta de 2% (atualmente está em 1,75%). Ela ainda argumenta que a baixa produtividade está segurando a economia e teme que algumas legislações propostas no Congresso possam vir a ameaçar a independência do Fed, atrapalhando seu plano para reestabelecer a plena economia norte-americana.

Diversos bancos centrais debatem como proceder nesse assunto, dado que os EUA estão fazendo sua parte na busca pela normalização da economia. O ECB (European Central Bank) vem discutindo sua estratégia de como e o quão rápido será reduzida a sua compra de ativos. O aumento na taxa de juros é esperado por diversos players europeus (em especial a Alemanha), e, após o anúncio do Fed, Mario Draghi (Presidente do ECB) disse que manteria não só taxa de juros, mas também, até segunda ordem, o programa de compras de ativos do ECB (que se diferencia um pouco do realizado pelo Fed), deixando, então, um cenário ainda mais desconfortável para a EU (European Union). É que, ao realizar tal comentário, bate de frente com a quarta maior economia do mundo e maior player do bloco, a Alemanha. Esta defende que é extremamente necessário o aumento da taxa de juros, visando a normatização da economia alemã em um cenário já de crescimento, deixando mais lacunas em relação ao futuro da EU.

A preocupação da Alemanha acerca da manutenção da taxa de juros do ECB é devido ao medo de uma fuga de capital de seus títulos para os norte-americanos. Isso porque, um título com quase o mesmo risco país, associado a um rendimento maior, se torna substancialmente mais interessante, gerando, então, além de um cenário dovish na EU, um cenário bull para a normatização da economia alemã, mesmo com a grande maioria dos indicadores em bons patamares, do ponto de vista do BC da Alemanha (Bundesbank).

Conclui-se, então, que o Fed estará realizando ainda neste ano (ou no início do ano que vem) a liquidação de parte de seus ativos, visando frear um pouco o mercado e ter de volta uma de suas maiores armas monetárias, já que, com US$ 4,5 trilhões já comprados, não existe muito espaço para expandir o programa, caso ocorram recessões.

É necessário esperar novos detalhes, principalmente em relação aos lotes liquidados e o período entre eles. Em paralelo, aumentam as expectativas para que, em breve, outros bancos centrais realizem tal medida e, com isto, consigam, finalmente (depois de quase 10 anos), se normatizar após a última crise.

 

 

Arthur Lemos: Estudante de Economia do IBMEC. Chefe da área de Análise Macroeconômica do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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