O mercado francês em meio às eleições

Há algumas semanas, foi escrito um texto falando sobre as eleições francesas e seus principais candidatos na época: Marine Le Pen, Emmanuel Macron, François Fillon e Benoit Hamon, isto quando ainda faltavam dois meses para o primeiro turno, que ocorrerá no dia 23 de abril. Agora, faltando uma semana para a ocorrência do mesmo, há algumas mudanças nas pesquisas de intenção de voto, como por exemplo a ascensão do socialista Jean-Luc Mélenchon.

Ao contrário do também socialista Benoit Hamon, que vem caindo nas pesquisas eleitorais, Mélenchon atraiu apoio dos esquerdistas ao adotar um discurso a favor do aumento dos gastos públicos. O candidato tem como intenção gastar 100 bilhões de euros, o equivalente a cerca de 106 bilhões de dólares, com o intuito de reavivar a economia francesa. Do lado oposto a Mélenchon, temos a nacionalista Marine Le Pen, que vem liderando as pesquisas, mas sempre com uma sombra atrás.

No início, o conservador François Fillon disputava as primeiras posições com Le Pen. Todavia, após envolvimento em um escândalo de corrupção, o mesmo viu sua popularidade cair. Dando espaço para o candidato independente Emmanuel Macron crescer nas pesquisas e ser visto por muitos como a solução devido a sua experiência profissional, tendo trabalhado em um banco de investimento e sido Ministro da Economia da França durante parte do governo do atual Presidente, François Hollande. Apesar disso, também atraiu críticas por não apresentar um plano de governo concreto de acordo com seus opositores.

O surpreendente nessas eleições francesas acabou sendo o número de candidatos com força significativa que poderia levá-los à presidência. Isso porque há uma semana do primeiro turno, tudo se encontra indefinido. Em meio a essas alterações nas pesquisas de intenção de voto, agora tem-se um empate técnico entre os quatro principais candidatos já citados: Marine Le Pen, François Fillon, Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon.

Estima-se que Le Pen esteja com cerca de 24% das intenções de voto, seguida pelo centrista Macron com 23%. Mélenchon estaria um pouco atrás dos dois, com 19% dos votos (ante 10,5% em março), um pouco à frente de Fillon, que possuiria apoio de 18% da população. Contudo, com uma margem de erro de 2 pontos percentuais, não há como considerar a vantagem segura. Em quinto, tem-se Benoit Hamon, citado no início deste texto, que, após perder eleitores para Mélenchon e Macron, possui algumas medidas um tanto quanto progressistas e bem vistas pela esquerda, estaria com 7,5% dos votos totais.

O fato inédito de possuir quatro candidatos com significativas chances de avançar para o segundo turno é visto como um reflexo dos resultados das últimas décadas, onde os partidos que governaram o país não conseguiram resolver alguns problemas franceses, como o desemprego, a dívida pública (que chegou a 96% do PIB em 2016) e a competitividade interna da economia. Diante disso, acaba ocorrendo certa indefinição por parte da população no que diz respeito à melhor opção para governar seu país. Mas, em meio a esse cenário atual das eleições, como o mercado tem reagido?

 

 

Diante da indecisão interna, o risco político do país vem aumentando. Isso se dá, principalmente, pelo fato de possuir duas posições ideológicas totalmente opostas entre os principais candidatos, que é o caso de Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen. Alguns especialistas chegam a alertar para o medo de um segundo turno com os dois, dado que esse cenário poderia resumir a escolha da população entre políticas bastante antagonistas.

Os indicadores do mercado têm mostrado claramente isso. O prêmio que a França paga à Alemanha para contrair empréstimos durante dois anos (2 year bond) aumentou para 55 pontos base, sendo esse o maior número em cinco anos. Já o prêmio para 10 anos (10 year bond) subiu para 75 pontos base na semana passada, ante menos de 60 pontos no final de março.

Além disso, o yield do CDS (Credit Default Swap) francês, que serve para termômetro do risco-país, atingiu 38 pontos em abril, ante 27 pontos no final do março, quando Mélenchon ainda possuía cerca de 10% de intenções de voto. Isso prova a fala de especialistas franceses comparando a disputa ideológica dentro das eleições francesas ao aumento do risco francês.

A candidata nacionalista francesa, Marine Le Pen, atrai críticas da oposição em alguns pontos considerado muito importantes: a aversão a imigrantes islâmicos e sua intenção de realizar o Frexit (saída da França da União Europeia). Considerando o fato que a França é a segunda maior economia da Europa, o seu cenário interno interfere diretamente no pensamento relacionado ao continente, que por sua vez interfere no aumento do risco-mundo. Sendo assim, o aumento do risco francês torna-se justificável.

Apesar disso, há a possibilidade de Le Pen avançar para o segundo turno com Macron ou Fillon. Em ambos os casos, as pesquisas mostram uma derrota da nacionalista. Em caso de uma disputa direta da mesma com Mélenchon, torna-se um pouco mais difícil prever o resultado, dada a tamanha oposição entre os discursos. Por ora, espera-se que o povo francês faça uma boa escolha e que os próximos 5 anos (tempo de mandato presidencial na França) sejam de bastante prosperidade para o país.

 

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Pedro Guerra

Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Análise Macroeconômica do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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