Recalculando a rota

Semana passada, comemorou-se o centenário de Roberto Campos, um dos mais importantes economistas do país, idealizador do PAEG e ícone do liberalismo. Campos foi inspiração para muitos pensadores e estudantes da ciência econômica e tem papel de relevo na história brasileira. Muitos de seus seguidores, como o economista Paulo Guedes, defendem a tese de “mais Brasil, menos Brasília”, em referência ao Estado enxuto, a base de sustentação dos liberais.

Depois da crise da década de 1930, o pensamento keynesiano (refere-se a John M. Keynes) ganha formato: uma tese diametralmente oposta ao pensamento clássico dominante, aquele do laissesz faire, de Smith, Ricardo e Say. Segundo o famoso economista inglês, o Estado deveria atuar para garantir a “demanda efetiva”, ou seja, um governo indutor de crescimento, invertendo a lógica liberal.

Ao longo do século XX, houve um “vai-e-volta” entre essas escolas de pensamento, notadamente no pós-guerra e, mais adiante, com o governo da primeira-ministra inglesa, Margareth Thatcher, que resgatou o liberalismo, com uma onda de privatizações e enxugamento de repartições públicas. Thatcher é o fio condutor do chamado neoliberalismo, que se espraiou mundo afora. A onda neoliberal, inclusive, ajudou a desmantelar os sistemas comunistas, tendo seu ápice na queda do Muro de Berlim.

No Brasil, essa tendência mais ortodoxa pronuncia-se com o governo PSDB, de FHC. A grande questão é que nossa Constituição, de 1988, não tinha nada de liberal. Pelo contrário, a carta magna é uma ode ao welfare state das “esquerdas”. Nesse sentido, o governo tucano, ao procurar dinamizar o Estado, tornando-o mais enxuto e eficiente, passa a privatizar grande parte das empresas públicas e racionaliza o orçamento, implementando a política de superávits públicos. Tal postura se mostra acertada, dando ênfase na construção de um governo com responsabilidade fiscal (inclui-se, aí, a lei!), ajudando no controle da inflação, mantendo-a em patamares baixos. Se observamos com cuidado, o primeiro mandato de Lula é uma “continuação” das políticas adotadas por FHC, como o tripé macroeconômico.

Com a crise global de 2008, a onda neoliberal “estoura” e cresce nos países centrais, uma guinada mais à esquerda, tal qual já acontecera em países da América Latina (com o petismo e o Chavismo) e em países da Europa Oriental. Assim, a eleição de Obama, nos EUA, é essencial, uma vez que reforça o viés menos conservador, característica dos liberais. Obama implementa, por exemplo, o “Obamacare”, um símbolo desse período mais “social”.

Mas, de tempos em tempos, a sociedade se manifesta, com seu voto. Desde 2016, o “GPS das urnas” vem indicando “vire à direita” (não necessariamente uma manobra radical, pois se você estiver na esquerda e virar para a direita cairá no centro… porém é uma mudança). A prova cabal foi a eleição, no último fim de semana, na França, que colocou no segundo turno a ultradireitista Marine Le Pen e o conservador (de centro-direita) Emmanuel Macron. Todavia, já tivemos outras urnas nessa linha, mais notadamente o Brexit e Donald Trump. Por aqui, também em 2016, a vitória de João Dória, à prefeitura de SP, vai na mesma direção.

O fato é que a volta do conservadorismo reflete um descontentamento geral com as políticas adotadas pelos partidos “socialistas”. Na Europa, o cenário se agrava por conta da situação dos refugiados, que afeta, de alguma forma, a vida dos cidadãos e tem impacto profundo na economia, que já não anda bem. Já nos EUA, o discurso nacionalista de Trump, muito por conta do elevado nível de desemprego pós-crise, foi um dos vetores para essa mudança.

Aqui no Brasil, em 2018, teremos eleições presidenciais. Qual será o trajeto que o “GPS das urnas” vai apontar para nós? Prosseguiremos no caminho dos últimos 13 anos ou a “voz que guia” sugerirá “vire à direita” também? Penso que ainda seja cedo para prevermos. Só não dá para cairmos no famigerado “recalculando a rota”, que, em geral, não nos leva a lugar algum.

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