Turquia, um autoritarismo paciente?

Temos assistido, em países como Grã-Bretanha ou Itália, por exemplo, aos crescentes movimentos populistas causados pela instabilidade do bloco econômico europeu. Nos últimos meses, a Turquia também vem se deparando com ondas de manifestos e sentimentos nacionalistas. O país enfrenta uma séria e complexa rede de problemas, desde uma guerra entre o Estado e os militantes curdos, até repetidos ataques do ISIS, decorrente da presença turca na Síria.

Nesse cenário, o partido turco islâmico AKP, em aliança com outros partidos de extrema direita, liderado pelo então presidente Recep Tayyip Erdogan, levou, recentemente, multidões às ruas em defesa de um pacote de reformas para substituir o sistema parlamentarista vigente por um sultanato. Para o principal partido de oposição turco, o Partido Republicano Social (PCCH), a mudança, via referendo, visa a ampliar a base de poderes do presidente, extinguindo o cargo de primeiro ministro e nomeando funcionários aos mais altos órgãos judiciais do país.

A aprovação do novo regime ocorreu no último dia 16 de abril e obteve margem vencedora de 51,3%. Os comícios para emplacar a proposta foram promovidos através de gigantescos cartazes com o slogan “YES”, apoiado por um eleitorado composto, em sua grande maioria, por religiosos e operários da classe média, que se sentiam marginalizados pela elite ocidental do país. A campanha realçou a participação de Erdogan nas benfeitorias realizadas durante o período de estabilidade e prosperidade econômica, quando houve a construção de estradas, hospitais e aeroportos em áreas anteriormente negligenciadas.

Uma análise dos resultados das urnas revela que uma maioria na região Oeste do país –  incluindo as principais metrópoles, como Istambul, Ancara e Esmirna -, formada por um eleitorado educado e urbano, se opôs e votou contra a mudança. Assim, a oposição, mediante uma diferença estreita na contagem dos votos, afirma, mesmo sem evidências, que houve manipulação dos votos e apela ao supremo tribunal eleitoral para que haja a anulação do referendo.

Além da oposição, o novo regime é alvo dos observadores internacionais, como a França, cujo presidente, François Hollande, afirmou que o referendo mostra uma Turquia dividida e pediu para que as autoridades respeitem os valores europeus. Já a Alemanha busca novos formatos de negociação e acrescenta que está disposta a auxiliar a Turquia em seu desenvolvimento econômico, desde que o país permaneça democrático. Com a aprovação do pacote de medidas, a comissão de Veneza advertiu que o novo modelo alimentará uma disputa com a União Europeia.

Apesar de a Turquia vir enfrentando sérias questões – como o problemático processo da imposição de sanções às importações agrícolas pela Rússia ou como o novo quadro de política externa para o Oriente Médio liderado pelo presidente americano, Donald Trump -, o presidente turco representa uma esperança para equilibrar as relações. Segundo os defensores de Erdogan, o objetivo é mudar a atual visão estratégica, com a resolução de problemas estruturais e a recuperação de laços com os líderes da UE e o restante da Europa, para que o país obtenha resultados positivos em sua nova retórica, com a volta da normalidade aos negócios.

 

 

Alisson Kalusi: Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Análise Macroeconômica do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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