África do Sul: a inflexão em uma noite

 

A África do Sul passou por mudanças sociais bem radicais após 1994, com o fim do Apartheid. Mudanças econômicas também ocorreram. Desde que Nelson Mandela se tornou o primeiro presidente sul-africano democraticamente eleito, a África do Sul se mostrou como uma forte potência do continente, considerada um dos principais países emergentes do mundo. Todavia, as últimas semanas foram um tanto quanto conturbadas para a maior economia do continente africano, fazendo com que o mundo desacreditasse do país.

Friedrich List, um dos principais críticos do liberalismo de Adam Smith, dizia que cabe ao país em desenvolvimento aplicar medidas protecionistas para desenvolver a indústria interna. Foram exatamente os passos seguidos pela África do Sul no período do Apartheid, onde eram cobradas altas tarifas para produtos internacionais. Como resposta às medidas e ao regime racista do país, a ONU e várias potências começaram a aplicar sanções, causando não só uma desaceleração na economia como um atraso tecnológico das indústrias, em relação ao resto do mundo. Foi com a democratização do país e sua abertura comercial, em 1994, que sua economia começou a impulsionar. Em uma década, a inflação caiu de 14% para 5%, e entre 1997 e 2004, o déficit orçamentário foi reduzido de 8% para 1,5% e a taxa de juros caiu quase que pela metade.

A África do Sul tem sua economia extremamente diversificada, o PIB é dividido principalmente em extração, mineração, indústria e turismo. Com uma posição estratégica, no caminho de muitos navios petroleiros que ligam o Oriente ao Ocidente, viu sua economia crescer, em média, 3,2% ao ano na primeira década pós-94, ante um crescimento médio de 1,6% na época do Apartheid. Mas todos esses números não significam um cenário perfeito: o país ainda enfrenta problemas graves, que muitos consideram ser fruto do regime racial, como a alta taxa de desemprego, de 26,6%, e a alta desigualdade de renda, que quase não se alterou desde 1994.

O futuro da África do Sul parece estar encoberto de incertezas. O presidente Jacob Zuma, do partido Congresso Nacional Africano (ANC), tomou medidas nas últimas semanas que elevaram o risco do país para um dos níveis mais altos. Na noite do dia 30 de março, o presidente demitiu 10 ministros, um deles o ministro das finanças Pravin Gordhan. Visto como competente e autor de um bom trabalho na economia sul africana, Gordhan não compactuava com propostas populistas de Zuma. Após a demissão repentina, quem assumiu, por indicação do presidente, foi o antigo ministro de relações interiores Malusi Gigaba. Com pouca experiência em finanças e negócios, sua escolha foi encarada como estratégica para Zuma conseguir aprovar as medidas que mais lhe agradam, como redistribuição de riquezas e calote na dívida pública, ações que Gigaba já admitiu que pretender fazer.

O mercado internacional reagiu com forte pessimismo diante do cenário formado, e os títulos sul-africanos foram rebaixados para junk bonds. Ou seja, as agências de risco Standard & Poor’s e Moody’s avaliaram os títulos no nível BB ou menor e Ba ou menor, respectivamente, o que representa um alto risco, devido à instabilidade do país e à probabilidade de calote das dívidas. Após o rebaixamento, o rand, a moeda sul-africana, caiu 13%, depois de 20 meses de alta, e os yields dos bonds em dólar para 2028 foram de 0,1% para 5,12%. O mundo começa a se perguntar o quão comprometido esta o governo sul-africano com as políticas fiscais, tornando essa a maior crise da África do Sul após o Apartheid.

O Banco Mundial projeta um crescimento abaixo de 1% nos próximos anos, inferior aos quase 2% dos cinco últimos anos. Contudo, tudo parece que será decidido em 2019, quando haverá eleições presidenciais. Nas votações regionais em 2016, a Aliança Democrática, oposição do governo atual, ganhou em três principais centros sul-africanos: Pretória, Porto Elizabeth e Johanesburgo. Além disso, mais protestos contra Jacob Zuma tomam conta das cidades do país, não só pelas suas últimas medidas como também pela série de escândalos, relacionados a corrupção e relações com famílias de magnatas. Há ainda uma forte expectativa de que o próximo presidente, eleito em 2019, não seja mais da ANC, fato que não ocorre desde 1994 com a democratização do país.

A demissão de Pavrin Gordhan foi uma mensagem clara de que o atual presidente fará de tudo para passar suas medidas populistas. O medo dos calotes e a dúvida sobre a competência do governo vigente geram incertezas e, por consequência, o risco. Os eleitores têm o poder de mudar esse cenário a partir de suas escolhas em 2019.

 

Gustavo Kronemberger: Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Mesa de Operações do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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