Nossa linda juventude

“Maravilha, juventude, pobre de mim, pobre de nós” – 14 bis

Na última semana de julho, fui até São Paulo para receber uma comenda, por haver me destacado no ensino de Economia e Finanças. Na oportunidade da entrega da condecoração, fiz um rápido discurso de agradecimento, onde mencionei minha atuação como professor universitário e o contato diário com a juventude. Enfatizei que é preciso resgatar alguns valores morais e éticos que parecem jogados na “lata do lixo”. Uma tarefa hercúlea, mas indispensável.

No último fim de semana, estava com minha esposa num shopping e entramos numa loja para comprar um presente. Na hora de fazer o pagamento, havia dois caixas disponíveis, porém com fila única. Um dos caixas atendia as chamadas “prioridades”. Quando se aproximava nossa hora de pagar, um jovem casal (o pai com uma criança no colo – em torno de 5 anos de idade) entrou no caixa das “prioridades”. Minha mulher, acreditando que eles haviam se enganado, alertou-os que a fila era única. Para minha surpresa, o pai (com a criança no colo) esbravejou: “Fila de prioridade”. Ora bolas, pelo que entendo a “prioridade” é para criança “DE colo” e não para criança “NO colo”.

Como venho salientando, é preciso exterminar esse hábito entranhado na nossa sociedade, de que a tudo somos capazes de resolver “dando um jeitinho”. Isso ocorre de maneira generalizada, inclusive na economia. Agora mesmo, o governo precisou elevar em R$ 50 bilhões os déficits (somados de 2017 e 2018), pois as atuais figuras prometidas no orçamento não seriam alcançadas.

A gravidade da situação fiscal do país está, de alguma forma, associada a essa crença de que somos um povo “esperto” (no sentido de malandragem). Se precisamos de mais recursos para fechar as contas, inventamos algo “inovador”, como as famosas pedaladas. O problema é que os investidores internacionais nem sempre estão dispostos a compreender essa “malandragem”. Em outras palavras, o que os “gringos” querem é que trabalhemos para enxugar o tamanho do Estado e não exercitarmos nosso “gingado”, para acomodar os desajustes.

A Constituição de 1988 “desenhou” um Estado considerado paternalista, aquilo que os teóricos chamam de welfare state. Sob essa ótica, tentamos corrigir os desajustes e injustiças de duas décadas de ditadura com a Constituinte. Até aí, poder-se-ia compreender, desde que as origens para as despesas nela comprometidas fossem especificadas de forma muito clara.

Quase três décadas se passaram e gastamos (em termos nominais) 10% mais do que arrecadamos com impostos. O chato é que os investimentos, proporcionalmente ao PIB, permanecem iguais aos daquela época.

A sociedade (pior, a juventude) observa um Estado perdulário e acredita que também pode ser. É o contraexemplo. No limite, se der errado e tiver que “dar um jeito”, se endivida, como procedem, muitas vezes, os governos. Dessa forma, a poupança privada não cresce. Como o governo é um agente que despoupa, a taxa de poupança agregada, como participação do PIB, desabou nos últimos anos. Esse é um considerado um dos motivos do baixo crescimento do país.

Replicar o “jeitinho brasileiro” é uma má forma de educarmos nossas crianças. Aceitar que se fure fila, estacione em local proibido, entre outros, é errado. Metaforicamente falando, posso dizer que qualquer pessoa é uma criança e, ao segurá-la no colo, poderei furar uma fila. Isso é ético? Em outras palavras, se não mudarmos o mais rapidamente possível, vamos perpetuar esse imbróglio institucional em que nos metemos e comprometer as gerações futuras. Pobre de mim? Ou pobre de nós?

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