Enigma da vez

Nos últimos dias, vários importantes economistas (brasileiros e estrangeiros) foram instados a se manifestar sobre a atual situação em que o mundo desenvolvido se encontra: crescimento com baixa inflação. Segundos eles, as causas para esse enigma são as mais variadas, passando por automação/novas tecnologias no trabalho, envelhecimento da população, endividamento elevado e produtividade. Pela teoria econômica normalmente aceita, a inflação sofre pressões advindas do mercado de trabalho aquecido, como é o caso, atualmente, da economia americana.

Creio que o tema seja oportuno, sobretudo porque na última ata do Copom fiquei com nítida percepção de que o colegiado do BC brasileiro está nessa linha, de que tal “fenômeno” poderá ocorrer aqui também (especialmente considerando a grande capacidade ociosa da nossa economia), o que avalizaria uma redução da taxa Selic para espantosos 6%-6,5% a.a.; uma taxa inédita na era do real. O próprio presidente do BC, Ilan Goldfajn, em entrevista ao jornal Valor Econômico, manifestou que a política monetária deve prosseguir “frouxa” por um bom tempo.

Sem dúvida, todas as razões citadas no primeiro parágrafo são válidas. Penso que o que melhor explica é a combinação delas. Porém, queria ressaltar alguns outros pontos que, em minha opinião, não foram mencionados e ajudam a desvelar o conundrum. Vamos a eles.

1) Se observarmos o momento precedente à crise de 2008, a economia global crescia em torno de 4,5% a.a., também com inflação sob controle. Ali, uma boa explicação para preços baixos eram China e Índia, vendendo suas quinquilharias a preços de “banana” ao redor do mundo, exportando desinflação. Tal situação, mesmo em menor escala, permanece viva;

2) Com a crise de 2008, o preços das commodities desabaram, o que certamente tem impacto sobre os índices de preços no atacado (IPAs), com reflexos sobre os índices ao consumidor (IPCs);

3) O timing de contágio da inflação aumentou. O que quero dizer é que, como a crise de 2008 deslindou, as famílias haviam se alavancado além do razoável, assim como as empresas. No pós-crise, os governos partiram para gastos ultra expansionistas (para mitigar seus efeitos), elevando dramaticamente seus endividamentos. Por conta dessa alavancagem desmedida, todos esses agentes tiveram (uns mais, outros menos) que proceder ao inverso. Tal processo é lento e dificulta o reaquecimento do consumo (a absorção doméstica do PIB = C + I + G), que está se dando de forma extremamente lenta. Dessa maneira, há um lag de tempo até que os preços voltem novamente a ficarem pressionados (mas voltarão!).

Nos últimos anos, o FED operou com maestria a saída da crise. O problema é como sair da cilada em que se meteu com os quantitative easing realizados. Como irá normalizar a situação e limpar seu balanço de ativos tóxicos? Certamente levará muitos anos, talvez uma década, para levar a bom termo essa tarefa. Enquanto isso, se a inflação retornar lá fora, como espero, o BC americano terá de subir sua taxa de juros, o que dificulta ainda mais o processo de normalização descrito.

Para tornar tudo mais desafiador, temos uma possível mudança no comando do FED em janeiro. A pergunta é: como o mercado reagirá a essa substituição que será feita por Donald Trump? Até o momento, todos estão “dando de ombros” para esse importante evento. Não me parece que seja trivial.

Para finalizar, o assunto da “moda” na economia é a importância da taxa de juros no combate à inflação. Nesse sentido, sugiro que leiam o novo livro de André Lara Resende, “Juros, Moeda e Ortodoxia”. Ajuda muito a pensar sobre esse enigma.

 

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