As tensões globais e o impacto sobre o preço do petróleo

No início do ano, escrevi um texto acerca do acordo de corte de produção arquitetado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Tal acordo foi definido no fim de 2016, mais precisamente em novembro, e contou com a participação de países membros da OPEP e de alguns aliados da organização, entre os quais se destaca a Rússia, um dos grandes produtores e consumidores mundiais, sendo, portanto, um dos grandes players no mercado petrolífero.

Tal tratado previa uma redução da oferta global de petróleo no mundo, buscando um reequilíbrio após anos de oferta excessiva, como apontava a OPEP. Para isso, os países membros cortariam sua produção e exportação de petróleo, o que deveria acontecer com os aliados também. Apesar disso, alguns problemas foram enfrentados pela organização, em especial no primeiro semestre deste ano.

Entre os problemas, é importante dar atenção especial a dois aspectos: a produção norte-americana em tal período e a exclusão de alguns membros do acordo. Desde meados de 2016, os Estados Unidos da América (EUA) vêm aumentando sua produção, o que fez o país reunir bons dados de perfuração e estoques de petróleo. Tais fatores acabaram por atrapalhar as intenções da OPEP, cujos países esperavam, com a redução da oferta, uma elevação nos preços.

Além disso, alguns países, como Irã, Nigéria e Líbia, ficaram de fora de tal acordo, apesar de serem membros da organização. No geral, a intenção da OPEP, ao isentar esses países dos cortes, era trazer a possibilidade de recuperação de mercado após anos de sanções econômicas dos EUA ao Irã, e de diversos conflitos internos na Nigéria e na Líbia, que acabaram prejudicando a produção dos mesmos.

De lá para cá, o preço do petróleo reagiu bastante, como era de se esperar. Em determinado momento, ainda no primeiro semestre, com a produção norte-americana e um aumento observado nas produções nigeriana e líbia, os preços observaram uma significativa baixa, com o WTI (West Texas Intermediate) saindo de uma posição de, aproximadamente, US$ 50, para atingir a faixa de US$ 42. Tal queda pode ser justificada pelo simples fato de que, naquele momento, o aumento da produção de tais países estava mais do que compensando o corte de outros.

Porém, os últimos relatórios mensais da OPEP trouxeram abordagens interessantes, que geraram consequências para a cotação do petróleo. Isso porque, no relatório disponibilizado no início de setembro, a organização mostrou um corte de 79 mil barris por dia, algo que foi bastante influenciado pela volta de conflitos internos na Líbia. A produção do país foi interrompida por alguns dias, fazendo com que, no mês de agosto, caísse, aproximadamente, 112 mil barris por dia.

Com isso, observou-se um estímulo nos preços, com o WTI voltando a ser cotado acima de US$ 50 e atingindo, no fim de setembro, quase US$ 53, uma alta de mais de 25% desde o dia em que a cotação se aproximou de US$ 42.

Desde então, a OPEP chegou a realizar uma reunião com seus membros e aliados para discutir a possibilidade de mais uma extensão do acordo, que seria prorrogado de março de 2018 até o final do próximo ano. Apesar de nada estar definido, diversos países sinalizaram positivamente para esta possibilidade, o que traz a visão, para muitos, de que o reequilíbrio do mercado será alcançado, e um aumento nos preços continuará sendo visto.

Mesmo após a divulgação dos últimos dados da organização, com números que refletem menos conflitos internos na Líbia e o consequente aumento na produção, o relatório de outubro mostrou que o país atingiu uma produção diária de 54 mil barris por dia. Tais números contribuíram para que a produção da OPEP, como um todo, se elevasse em 88,5 mil barris por dia, o que, na visão de muitos, deveria causar um cenário de baixa para a commodity, mas não é o que tem se observado.

Com as expectativas de continuidade dos cortes de produção, além de projeções que a demanda global continue se elevando – algo que vem sendo alertado nos últimos meses –  o mercado se encontra cada vez menos pessimista para os preços. Além disso, o cenário macroeconômico mundial está deveras conturbado. O motivo são as tensões globais, onde a ameaça de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte poderia estimular a demanda por petróleo.

Outro conflito que acaba por ganhar bastante importância é a relação recente entre EUA e Irã, tendo o presidente norte-americano, Donald Trump, criticado os iranianos em declarações recentes, acusando o país de não cumprir o acordo nuclear estabelecido em 2015. Tal fato, aliado a alguns conflitos internos no Iraque – onde algumas disputas pela cidade de Kirkuk, que responde por uma parcela significativa da produção de petróleo do país – acabam por trazer um cenário propício a reduções na oferta das petrolíferas de tais países.

Dessa forma, as próximas movimentações de tais países deverão guiar o preço do petróleo no curto prazo. Isso significa que, por ora, é fundamental avaliar a postura adotada pelos líderes globais, para que, assim, possamos traçar projeções mais precisas para o futuro do preço do petróleo.

 

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Pedro Guerra

Estudante de Economia do IBMEC. Membro da área de Análise Macroeconômica do Cemec, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

 

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