O Futuro do Zimbabwe

Após 37 anos, parece ter chegado ao fim o governo de Robert Mugabe, presidente da República do Zimbabwe. Com o apoio da população, as forças armadas tomaram as ruas, invadiram o Palácio Presidencial e mantêm sob custódia Mugabe e sua família desde o início de novembro. Além da instabilidade política que já assolava o país há alguns meses, a demissão do vice-presidente, Emmerson Mnangagwa, e as especulações de que a esposa do governante, Grace, poderia assumir o poder, culminaram no golpe.

Nos últimos anos, com a idade mais avançada e a saúde debilitada, Mugabe passou a ser mais influenciado por Grace, com quem é casado há mais de vinte anos. No entanto, a primeira-dama não é vista com bons olhos para suceder a presidência. Além de não ter qualquer experiência político-econômica, “Gucci Grace”, como é conhecida por ter um estilo de vida que valoriza o luxo e os altos gastos, não agrada a população, militares e seu partido Zanu PF.

Embora Mugabe ainda seja bastante admirado por seus feitos passados, principalmente pela participação ativa na luta pela independência do Zimbabwe contra o imperialismo inglês, a verdade é que suas atitudes no governo levaram o país a um caos econômico.

Ao tomar à força propriedades de famílias brancas, principais responsáveis pela produção agrícola do país – o setor é o mais importante do país -, Mugabe conseguiu agradar militares e população, mas deu início à decadência da República do Zimbabwe.

Logo em seguida, Mugabe assumiu a presidência, pautado em um discurso socialista, que agradava a camada mais pobre da população. Apesar do início promissor, com relevantes investimentos em educação, os altos gastos públicos e os favores a aliados tornaram a administração do país financeiramente insustentável. O presidente acabou optando por ações radicais, como o confisco de propriedades. Para pagar militares, funcionários públicos e outros gastos, imprimiu dinheiro, levando o país a uma hiperinflação – em 2008 os números chegaram a 230.000.000%.

As atitudes assustaram o mercado internacional e investidores, agravando a crise no país. Em uma tentativa de combater a inflação, ele adotou uma política de congelamento de preços, gerando previsível escassez de bens de consumo básico. A estratégia não surtiu efeito, e hoje encontra-se o país em situação calamitosa, com taxa de desemprego em 90% e mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza.

Tendo em vista todos os agravantes que levaram ao desgaste do seu governo, a recessão econômica e a instabilidade política fizeram com que a situação se tornasse crítica, e os militares viram-se obrigados a intervir, apoiando seu afastado vice-presidente, demitido indiretamente pela esposa de Mugabe, que almejava ser sua sucessora no poder.

No dia 19 de novembro, ainda sem um desfecho para a história, os líderes do partido votaram destituindo Mugabe da liderança do mesmo, sendo considerado o golpe final que irá dar fim ao seu regime. Chris Mutsvangwa, líder da associação dos veteranos de guerra, afirmou que os militares precisam persuadir o presidente a renunciar logo, ou então “convocaremos a população e eles vão dar conta do trabalho”, em tom de ameaça.

O partido também espera instaurar no poder Emmerson Mnangagwa, o vice que foi removido do seu cargo há duas semanas, sendo este o estopim da crise. Ele ficaria como líder do partido e presidente da República do Zimbabwe. Entretanto, a não ser que Mugabe renuncie ou sofra impeachment, continuará sendo presidente.

A população quer a renúncia o quanto antes. No imaginário coletivo, é solução, em parte, para os problemas socioeconômicos. É necessário ser muito otimista para acreditar que o movimento político trará mudanças ao país, dado que o golpe militar não foi organizado por revolucionários, mas por líderes políticos que querem a manutenção do status quo e fazem parte do sistema corrupto criado por Mugabe e seu partido.

O futuro é incerto e, em meados de 2018, haverá eleições, que serão mediadas pela África do Sul – o que não deve ser de grande ajuda, por ser um país quiçá tão corrupto quanto o Zimbabwe. Além disso, organizações internacionais e imparciais também vão mediar o processo eleitoral, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia.


Danilo Vasconcelos

membro de Finanças Corporativas do CEMEC.

 

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