Situação econômica e orçamentária dos Estados Unidos

O déficit do governo americano está crescendo e pode se tornar um grande problema para os políticos americanos. O problema fiscal estadunidense se agravou ainda mais, com perspectivas negativas para o futuro, após o corte de tributação promovido pelo atual presidente Donald Trump. Isso porque, segundo o Escritório de Orçamento do Congresso, os cortes feitos pela reforma tributária podem adicionar US$ 1,414 trilhão ao déficit americano até 2027, sem descontar o ajuste promovido pelo crescimento econômico.

Espera-se que a reforma tributária irá afetar setores como o comércio e o déficit do governo. Em relação ao comércio, as empresas terão uma diminuição dos tributos para 21%, ante aos 35% anteriores. Com isso, alguns estudos, como o da Cowen Research Group, apontam que empresas terão um aumento expressivo em seus balanços, e a grande questão é saber onde irão alocar essa remessa maior de dinheiro. Em um estudo conduzido pelo Fed de Atlanta, 39% das empresas entrevistadas apontaram que pretendem aumentar suas contratações, o que pode ser notado pela taxa de desemprego atual, de 4,1%.

Já em relação ao déficit, experts preveem que, mesmo com o crescimento econômico promovido pela reforma, o mesmo não será capaz de reverter as perdas, com menos arrecadação de impostos. Segundo estimativas de alguns economistas, mesmo contando o crescimento econômico, a reforma continuaria adicionando em torno de US$ 1 trilhão ao déficit. Isso, porque além do impacto negativo que o corte nos impostos irá causar, o Congresso aprovou, ano passado, três medidas emergenciais para contenção de desastres causados por furacões e incêndios, uma em setembro, uma em outubro e a última em dezembro, que, somadas, custaram US$ 132,8 bilhões.

A Fitch, agência de rating, estima que este ano o déficit chegue a 4% do PIB americano e que a dívida nacional, que inclui o déficit orçamentário e pagamento de dívidas geradas pelos títulos de Tesouro americano, pode chegar a 120% do PIB em 2027. Atualmente, encontra-se em torno de US$ 20 trilhões.

Quais malefícios esse gasto exacerbado do governo americano pode gerar? A pergunta pode ser respondida de duas formas, analisando consequências de curto prazo e de longo prazo.

No curto prazo, as consequências, na verdade, são positivas. Um maior gasto governamental e o corte dos impostos promovem crescimento econômico. O governo contrata empresas privadas para realizar seus gastos, como em obras públicas, o que gera mais empregos, já que a empresa terá que contratar novos funcionários. Os novos funcionários, que antes estavam desempregados, começam a consumir, e ainda, pagam menos impostos, devido à reforma tributária. Isso faz a economia crescer.

Agora, no longo prazo, a conversa é totalmente diferente. Uma consequência desse gasto será a aceleração da inflação. Vejamos: inicialmente, os gastos governamentais “jogam” dinheiro na economia, que será usado pelas empresas contratadas para pagar seus funcionários. Em situação semelhante à de curto prazo, os funcionários consomem, ocorre aumento da demanda pelos produtos, e, com essa maior demanda, as empresas podem aumentar o preço dos produtos. Porém, com os produtos mais caros, trabalhadores exigem salários maiores para ter o mesmo poder de compra. As empresas, com custos mais altos (maiores salários), aumentam o preço dos produtos novamente, e assim começa o ciclo inflacionário.

Esse cenário de longo prazo gerou preocupação em Alan Greenspan, ex-presidente do Fed. Segundo Greenspan, os EUA se encontram no meio de duas bolhas, uma do mercado acionário e outra do mercado de títulos do Tesouro.

De fato, o mercado acionário vem quebrando recordes atrás de recordes, em um ritmo um tanto quanto peculiar. Os três principais índices americanos, Nasdaq, Dow Jones e S&P 500, fecharam janeiro em alta e renovaram seus recordes. Porém, a questão é se essa alta vem de uma possível bolha do mercado, como Greenspan afirma, ou se a alta vem, como muitos economistas vêm falando, do sentimento de crescimento global neste ano.

Contudo, a questão da bolha do mercado de títulos pode ser considerada uma situação um tanto quanto complicada. O yield dos títulos continua a subir por causa do risco cada vez maior que os investidores do mesmo correm, visto que a dívida americana vem crescendo com o tempo. Soma-se a isso o fato de que diversos bancos centrais do mundo fazem a aquisição em massa dos títulos após a crise de 2008. Ou seja, o Tesouro americano tem muitas obrigações a pagar. Além do mais, a contínua desvalorização do dólar faz com que esses ativos sejam mais atrativos.

Devemos falar também sobre como evitar esse possível cenário futuro ruim para a economia norte-americana. O responsável por esse árduo trabalho é o banco central estadunidense, Fed. Para controlar uma possível aceleração da inflação, o aumento da taxa de juros poderia ser uma boa escolha. Por isso, é tão importante que o sucessor de Janet Yellen no cargo de presidente do banco, Jerome Powell, continue a política de aumento dos juros que Yellen implementou durante seu mandato.

O aumento de juros é a melhor alternativa porque, como é popularmente conhecido, os juros é o preço do dinheiro. É quanto você “paga” para ter dinheiro. Com uma taxa de juros maior, o nível de empréstimo feito pela população tende a cair, o que, consequentemente, faz com que o consumo diminua, fazendo com que a inflação possa ser controlada.

Jerome Powell é o primeiro presidente em mais de quarenta anos que não tem um diploma de economia. Powell começou sua carreira na economia em um banco de investimentos. Depois, trabalhou como secretário de finanças no Tesouro Americano e, em 2011, foi indicado pelo presidente Barack Obama para um cargo no Conselho de Diretores do Fed, sendo efetivado para o termo completo dois anos depois.

Com esse vasto currículo, muitos analistas acham Powell completo o suficiente para exercer a função de presidente do Fed. Ainda, analistas consideram que Powell irá continuar o legado de Yellen, com apertos na política monetária americana e aumento dos juros. Dessa forma, o trabalho de Powell será de extrema importância para que a inflação atinja a meta estabelecida pelo Fed.


João Marcelo Costa

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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