África do Sul: Um novo começo por velhas figuras.

O novo chefe de Estado da África do Sul, Cyril Ramaphosa, afirmou em seu primeiro discurso como presidente que a nação africana está diante de um “novo começo”. A declaração do novo presidente deve ser tratada com certo nível de cuidado.

A incredulidade no que tange o suposto “novo começo” da nação africana é advinda da análise dos personagens que compõem o momento político da África do Sul. O recém-eleito Cyril Ramaphosa está longe de ser uma figura nova na política, suas vidas pública e política, podem ser observadas desde sua atuação sindical na década de 1980 e o partido (CNA – Congresso Nacional Africano) do qual o estadista é membro, é o mesmo que governa a África do Sul desde 1994.

O referido Cyril Ramaphosa é um político/empresário/sindicalista sul-africano que passou uma considerável parcela da vida lutando contra o regime de segregação racial. Ramaphosa, comandando o Sindicato Nacional de Mineiros, militou durante anos contra o regime racista do apartheid, chegando, na década de 1990, a integrar a equipe selecionada por Nelson Mandela para intermediar as negociações da transição política com o chamado “poder branco”.

A trajetória do homem, embora marcada por acontecimentos por muitos considerados louváveis, não foge de momentos extremamente complexos e possivelmente comprometedores. A fortuna adquirida por Ramaphosa em atividades empresariais já foi colocada em cheque por diversas vezes, muitos dos seus críticos afirmam que o sucesso nos negócios é devido a favorecimento político e que os negócios de Ramaphosa são, na verdade, utilizados para financiar o partido Congresso Nacional Africano (CNA).

Além das acusações de favorecimento, a carreira do novo presidente tem uma mancha de natureza mais concreta. No ano de 2012, um total de 34 mineiros morreram e outros 78 ficaram feridos durante uma desastrosa ação policial que objetivava encerrar uma greve.

O evento conhecido como Massacre de Marikana foi investigado e, durante as apurações, provas de que Ramaphosa (na época membro da administração da empresa controladora da mina) teria requisitado uma ação enérgica por parte da polícia surgiram de forma que muitos o consideram, ao menos parcialmente, responsável pelo acontecido.

Já o outrora citado partido é o centro do poder político da nação desde o término do regime racial em 1994. Todos os presidentes da África do Sul desde Nelson Mandela fizeram parte do partido. Além disso, o partido tem a maior parte das cadeiras da assembleia nacional e é majoritário nos cargos eletivos de menor expressão.

Estabelecidos os personagens que irão realizar o “novo” na nação africana, é necessário perceber os problemas que precisam ser enfrentados.

Por um lado, extremamente prático, existem questões que podem ser representadas numericamente, questões essas como a taxa de desemprego (27%), o baixo crescimento da economia (em torno de 1,1% ao ano) e o fato de que mais da metade da nação vive dentro da linha da pobreza.

Por outro lado, existem questões que não são quantificáveis de forma simples, mas que representam desafios por vezes superiores às questões já apresentadas. Dentre essas, a mais importante é a imagem do governo sul africano.

Nos últimos anos a percepção pública do governo sul africano foi assolada por denúncias e casos de corrupção, para ilustrar a questão nada melhor do que a forma com a qual o, agora ex-presidente, Jacob Zuma deixou o poder.

O ex-presidente governou o país por um total de nove anos consecutivos. Seu período presidencial foi interrompido graças a uma crise de integridade motivada por denúncias realizadas em face de Zuma. O ex-presidente é alvo de mais de 700 acusações de corrupção e fraude.

A enxurrada de acusações levou a popularidade do político e de seu partido (Congresso Nacional Africano) aos piores níveis já registrados. Como resultado da percepção pública e da pressão o próprio partido de Zuma empreendeu uma campanha de pressão com o objetivo de provocar a saída do presidente.

A campanha chegou ao ponto de oferecer apoio à possíveis moções de desconfiança contra o presidente (vale ressaltar que no sistema político sul áfrico as moções de desconfiança são mecanismos válidos para a retirada do presidente do poder). Eventualmente, Zuma acabou por renunciar mas uma parcela razoável dos analistas de política entendem que a saída evitou uma retirada forçada, apenas.

A imagem do país manchada, combinada com o resultado, aquém do razoável, dos indicadores econômicos, pintam a figura nefasta de uma nação com graves problemas internos e que não é atraente o suficiente para angariar o volume de investimento necessário para efetivamente causar a ignição da economia local.

Apesar da desastrosa e desafiadora pintura que se encontra pendurada na parte inferior do mapa do continente africano, as perspectivas, imediatamente posteriores a posse de Cyril Ramaphosa, são surpreendentemente positivas. Em termos econômicos, o Rand sofreu valorização de 2,5% e atingiu patamares referentes ao pré-crise do governo.

O recém empossado presidente afirmou que pretende atacar de forma eficiente a corrupção dentro das instituições da nação e dentro da cúpula de seu próprio partido, ao mesmo tempo que pretende impulsionar a economia da nação.

Embora ainda não tenha apresentado um plano de governo com o necessário detalhamento das políticas que serão aplicadas para cumprir com a promessa de erradicar a corrupção e melhorar a economia, diversos pontos foram levantados durante seus discursos pós posse.

Em termos de economia, o atual presidente realizou uma verdadeira feira de promessas, dentre elas: emprego para os jovens, enfrentamento do déficit fiscal, estabilização das empresas estatais, ampliação da produção agrícola e aumento dos investimentos estrangeiros.

Em termos de combate a corrupção, nada foi estabelecido de forma factual. O presidente apenas reforçou seu compromisso com a ideia de limpar o governo da corrupção. Aqui existe apenas a fala de que haverá um enfrentamento as deturpadas posturas que se mostram corriqueiras no país (um embate extremamente necessário já que o partido, o governo e as instituições da nação se encontram em uma perigosa zona de descrédito).

O novo governo, formado por velhas figuras e o mesmo partido de sempre, surgiu com uma feição messiânica e fez o que os governos fazem de melhor: discursou e prometeu. A extensão da seriedade das promessas e a conclusão fática dos objetivos são incógnitas que apontarão o futuro da África do Sul.

Uma dose colossal de promessas e uma outra perigosa de esperança inundam o ar sul africano e apenas o tempo é capaz de prever o que vem adiante. Ao resto do mundo, e a maioria do povo da África do Sul, só resta torcer e esperar que as mudanças nas posturas dos dirigentes da nação ocorram de forma a permitir que a nação volte a explorar seu potencial de crescimento e desenvolvimento de forma satisfatória.

Resta aos sul-africanos esperar que as velhas figuras consigam mostrar uma nova face.


Eduardo Antônio Coelho de Brito

Membro do Jurídico e Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

 

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