Eleições na Itália: um legado de instabilidade social e política

As eleições previstas para ocorrerem na Itália no dia 4 de março se revelam um evento de extrema importância não somente para se obter maior clareza no que se refere ao cenário interno do país, mas também para o do continente europeu como um todo. A Itália possui um histórico político um tanto quanto conturbado, caracterizado pela grande quantidade de alianças e coligações, utilizando como exemplo o atual governo do primeiro ministro Paolo Gentiloni, que tem ministros de quatro partidos diferentes. Destaca-se, também, um complexo sistema eleitoral no qual obter a maioria parlamentar é um feito de notória dificuldade, além de já ter tido mais de 60 chefes de governo diferentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Para as eleições deste ano, três partidos são considerados como as maiores forças políticas italianas do momento, sendo eles o Partido Forza Italia (Força Itália), liderado pelo já quatro vezes eleito primeiro ministro Silvio Berlusconi. Vale mencionar que Berlusconi foi impedido de exercer qualquer cargo legislativo por seis anos, após ter sido condenado por fraude fiscal em 2013. Dessa forma, o ex-ministro pode permanecer líder do partido, mas não poderá assumir uma posição no governo caso o Forza Italia vença as eleições.

O supracitado partido participa de uma coalizão de caráter centro-direitista com os partidos Lega Nord (Liga do Norte), Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália) e Noi con l’Italia (uma tradução aproximada seria “nós com a Itália”). Entre as principais propostas defendidas pela coalizão, a questão imigratória ganha respaldo maior, a qual tem causado grande polêmica no país. Berlusconi chegou a afirmar que os imigrantes são “uma bomba social” e se comprometeu a deportar centenas de milhares de imigrantes ilegais. A coalizão pretende, ainda, promover melhoras na segurança pública e nas relações diplomáticas com a Rússia, bem como nutrem um sentimento anti União Europeia.

Outro partido de relevância nas pesquisas é o Partido Democrático (PD), antigo Partido Comunista, liderado por Matteo Salvini, e do qual os atuais presidente e primeiro ministro, Sergio Mattarella e Paolo Gentiloni, fazem parte. Tal partido também faz parte de uma coalizão de centro-esquerda, com o Piu’ Europa (Mais Europa, um partido pró UE), Lista Insieme e Civica Popolare.

Por último, mas não menos importante, o Movimento 5 Estrelas, fundado em 2009 e liderado por Luigi Di Maio. Fato interessante sobre o relativamente novo partido é que as premissas do mesmo não se encaixam de forma clara nos tradicionais espectros da esquerda ou da direita. O partido detém visões anti imigratórias, de euroceticismo e pró meio ambiente. O “5 Estrelas” estampado no nome do bloco político se remete à defesa de cinco tópicos: desenvolvimento sustentável; transporte sustentável; direito a acesso a internet; ambientalismo e água de propriedade pública. Segundo Di Maio, o partido não participa de nenhuma coalizão no momento, embora tenha afirmado que, caso não consiga obter maioria no parlamento, estaria disposto a abrir conversações com outros partidos.

Embora muito das campanhas políticas dos candidatos estejam voltadas para a discussão referente ao fluxo imigratório no país, grande parte da preocupação dos eleitores se dirige à situação econômica da terceira maior economia da UE, a qual ainda não retornou ao patamar pré crise de 2008 (se encontra 6% abaixo do registrado no começo do fatídico ano). O atual governo do PD argumenta que o momento mais turbulento ficou no passado, apontando para o crescimento de 14 trimestres consecutivos, apesar de boa parte da população não ter desfrutado de nenhum efeito positivo gerado pelas sucessivas expansões.

A estrutura econômica italiana é baseada em seu pólo industrial situado na porção norte do seu território, onde se encontram a maioria das empresas privadas. A parte sul, por sua vez, é caracterizada pela atividade agrícola, mantendo um legado de subdesenvolvimento, desemprego e altos subsídios. A terceira maior economia da UE é assolada por uma série de empecilhos ao crescimento, responsáveis também pelo fato da Itália registrar baixa produtividade e um progresso econômico entre os mais vagarosos da Europa. Entre eles, menciona-se a grande máquina estatal, causando excesso de burocracia, pesados impostos, um sistema judiciário cronicamente lento, um fraco setor bancário e níveis enormes de dívida pública (a qual atingiu 131% do PIB em 2017). Essa combinação, inevitavelmente, levaria milhões de cidadãos a cruzarem a linha de pobreza, fornecendo estímulo ao descontentamento social, do populismo e do surgimento de partidos de ideologia contrária aos princípios sociais, políticos e econômicos convencionais, tais como o partido de extrema direita Liga Anti Imigratória e o já mencionado Movimento 5 Estrelas.

Mesmo com a economia em uma saúde muito melhor do que a vista durante as últimas eleições gerais, em 2013, a quantidade de italianos em condições de extrema pobreza cresceu para quase 5 milhões em 2016, com a taxa de desemprego a 10,8%, 4 pontos percentuais maiores do que em 2008, se transformando em um dos problemas de maior gravidade na Itália atual. Essas desavenças sociais, aliadas à falta de oportunidades, provocaram um grande aumento na emigração. Entre os anos de 2006 e 2017, o número de italianos vivendo no exterior apresentou um aumento de cerca de 60%, de 3 para 5 milhões.

Tendo isso em mente, alguns candidatos têm exibido promessas de elevação na pensão mínima, redução no tempo para aposentadoria e auxílio mensal a famílias com crianças. O sistema de aposentadoria vigente na Itália foi reformulado durante o governo de Mario Monti (2011-2013), a chamada reforma Fornero, elaborada pela então Ministra do Trabalho, Elsa Fornero. A crença sobre a referida reforma é de que esta ajudou a apenas retardar o colapso do país, uma vez que nenhuma mudança relevante foi promovida no setor público, onde os maiores níveis de dívida se concentram. Entretanto, acredita-se que a implementação de programas de bem estar social tendem a, de certa forma, incentivar a consolidação da pobreza, já que poderia dissuadir as pessoas de procurarem empregos, além de arcarem em custos extremamente altos.

As pesquisas eleitorais indicam que possivelmente não haverá maioria parlamentar, com a coalizão de centro direita encabeçada por Berlusconi líder de intenção de votos, de, aproximadamente, 37,5%. O 5 Estrelas é o partido único mais popular, com 26,3% de aprovação, enquanto que a coalizão de centro esquerda do PD aparece em terceiro lugar, com 25,5%. A quantidade de eleitores indecisos também se mostra bem elevada, entre 30 e 35%.

O sentimento de incerteza paira sobre a nação italiana, sentimento esse que é partilhado por investidores de todo o mundo, considerando os fracos níveis de investimento estrangeiro direto no país. A única certeza que se tem é a de que o vencedor das eleições terá um grande desafio pela frente, principalmente em assuntos no que diz respeito às esferas social e econômica.


   Pedro Tonazzi

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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