Reações dos mercados em fevereiro de 2018

Ajustes nos investimentos após a queda dos ativos globais

Antecipar o início de um novo ciclo, ou o final de uma era, é o que faz os investidores alcançarem ganhos expressivos. Por isso, quando há prenúncios de reversões de tendências, costumam ocorrer movimentos de grande magnitudes, como o que vimos no início de fevereiro.

Já assistimos a esse filme antes. Exagerada ou esperada, a queda dos preços dos ativos ao redor do mundo foi uma reação à elevação das taxas dos títulos americanos de 10 anos e a tudo que essa alta possa impactar.

Neste texto, vamos reavaliar as perspectivas econômicas e financeiras globais e ver como as mudanças à vista podem afetar nossos investimentos. Já expressamos nossa preocupação com a abundante liquidez internacional promovida pela política de afrouxamento quantitativo dos bancos centrais e as consequências nos mercados financeiros no nosso eBook Cenários e Investimentos 2018. Agora, vamos refletir sobre o assunto à luz dos últimos acontecimentos.

Mudança da política monetária internacional

Desde 2009, os bancos centrais estimularam os mercados financeiros reduzindo as taxas de juros, recomprando títulos e criando dinheiro novo. Muito foi discutido sobre a permanência de crescimento, inflação e juros em patamares baixos, ao que se deu o nome de estagnação secular. Mas os bancos centrais americano e da Inglaterra já voltaram a subir os juros, e o Banco Central Europeu anunciou a redução das compras mensais de títulos, devendo finalizar o programa de compras de ativos em setembro de 2018.

Assim sendo, o futuro das políticas dos banco centrais já não parece mais tão  óbvio, e o crescimento da economia mundial pode naturalmente levar à inflação mais alta.

A velocidade desse processo será determinante para a dinâmica do crescimento global, principalmente para os emergentes. O Banco Mundial avisou, no mês passado, que os mercados financeiros podem estar mais vulneráveis neste cenário.

Por que a inflação preocupa

Os títulos do Tesouro americano de 10 anos, abaixo de 1,5% em meados de 2016, passaram de 2,05% no início de setembro, para 2,84% em 2 de fevereiro, dia em que foram divulgados os dados do mercado de trabalho americano. A taxa de desemprego está em queda, no entanto, com o crescimento na massa salarial em 2,9% em janeiro, os primeiros sinais de inflação podem aparecer, o que levaria o Fed, o banco central americano, a acelerar a elevação do juros.

É importante lembrar que a alta da taxas implica em desvalorização dos papéis, inclusive os de renda fixa.

Além disso, a reforma tributária proposta pelo presidente Trump e aprovada no Congresso americano, com redução dos impostos para empresas e pessoas, significa desequilíbrio nas contas do governo e piora da situação no longo prazo..

Juros mais altos são um desafio

Com o custo do empréstimo elevado para empresas e consumidores, o crescimento econômico pode desacelerar e trazer para o quadro a discussão sobre um possível início de processo recessivo. A economia é cíclica e as recessões estão sempre no radar.

A expectativa de juros mais altos também impactam nas projeções do preços dos ativos. As cotações das ações sofrem reajustes e podem levar os índices acionários ao fim da temporada de recordes sucessivos.

Perspectivas para os mercados acionários

As projeções de crescimento econômico global ainda são otimistas. Apesar do ciclo de nove anos de crescimento nos EUA, os resultados do quarto trimestre das empresas do S&P 500 registraram lucros acima de 13% e vendas superiores a 8% em relação ao ano anterior. A redução dos impostos ainda darão uma mão aos lucros, e as empresas poderão devolver dinheiro aos acionistas via recompra de ações, sustentando seus preços.

As quedas atuais podem representar oportunidades de compra. E na Europa, Japão e países desenvolvidos em geral, o nível dos preços, avaliado pelos índices preço/lucro das empresas, sinaliza que ainda há potencial de valorização.

Aumento da volatilidade

Como consequência dos acontecimentos recentes, o VIX, conhecido no mercado financeiro como o índice do medo, pois mede a volatilidade difundidas nos preços das opções do índice S&P500, atingiu níveis vistos em agosto de 2015, quando a repentina desvalorização do yuan deflagrou turbulência nos mercados, saindo da faixa entre 10 e 20 para próximo de 40, resultando em mais prejuízos e em alguns casos, em perda total e liquidação de produtos.

Recomendação de investimento

Muitas análises foram divulgadas na sequência do que ocorreu nos primeiros dias de fevereiro. Enquanto muitos justificam como a volta à normalidade, dado que a volatilidade nos dois últimos anos estava estabilizada em patamares bem baixos, outros conjecturam problemas futuros.

Até mesmo o Sr. Ray Dalio, o bilionário investidor americano e fundador do maior hedge fund do mundo, postou em seu LinkedIn que o cenário não é claro.

Dito isso, nossa recomendação inclui um percentual entre 30% e 60% diversificado em renda fixa local, pois nossa taxa de juros real relativa ainda é alta e serve para absorver os impactos da reverberação da volatilidade vinda do exterior e das questões domésticas, como a eleição e a deterioração das contas fiscais. O restante deve ser alocado em fundos multimercado e de ações, que aproveitam as distorções de preços de ativos globais para incrementar os resultados.

Talvez os prejuízos dos fundos baseados em volatilidade, algoritmos, ou até as criptomoedas, possam causar crise em determinadas instituições financeiras, acarretando em quebra de confiança e aumentando a aversão ao risco, mas uma carteira bem diversificada com estratégias de proteção e que aproveitem as oportunidades pode evitar a sensação de que o fim de mundo está chegando, de novo!

 

Escrito por

Consultora de investimentos da Órama autorizada pela CVM, CFP® e autora de diversos livros.

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