A guerra na Síria: uma questão histórica e cultural

Desde que a primeira experiência democrática foi instaurada em Atenas, na Grécia, por volta do século V a.C., a população começou a lutar contra regimes ditatoriais. Não foi diferente na história da humanidade. Essa luta data até de antes de o regime democrático ser implantado.

Um exemplo são os judeus, na Babilônia, contra o rei Nabucodonosor, no chamado “cativeiro da Babilônia”, onde os judeus lutaram por sua liberdade. Mais para frente, vemos, em 1358, a revolta Jacquerie, na França, que refletia o desespero da população em meio à peste negra, quando o governo não era mais eficiente e se encontrava num vazio de poder, à mercê das companhias livres, bandos de mercenários renegados que andavam pelo país. No mesmo país, encontramos em 1789 a tão conhecida Revolução Francesa, que buscava, com o lema “Liberté, Egalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), a derrubada do regime absolutista e a instauração da democracia liberal ou constitucional.

Esse pequeno apanhado histórico revela que a situação atual na Síria não é única. Existem muitas outras crises, mas nenhuma tem a proporção e a dimensão da crise pela qual a Síria passa. Essa crise está tendo dimensões globais, pois, além do fenômeno da globalização, e as notícias em tempo real de tudo o que acontece, o conflito está se refletindo em diversos países, não só em suas terras. A crise passa de um protesto simples a uma guerra em que várias pessoas estão sofrendo e morrendo por causa de um regime autoritário.

A história de toda essa instabilidade começa em 2011. Porém, muito antes disso, vários sírios já reclamavam de alto índice de desemprego, corrupção e falta de liberdade política no mandato do presidente Bashar al-Assad, que sucedeu seu pai, Hafez al-Assad, após sua morte em 2000.

Voltando para 2011, em março, protestos pró-democracia eclodiram no país, mais especificamente na cidade de Deraa, ao sul. As manifestações eram inspiradas não só por uma reforma no governo, mas também pelos levantes da Primavera Árabe, onda de protestos, revoltas e revoluções populares contra governos do mundo árabe, que eclodiu em 2011. A raiz dos protestos foi o agravamento da situação nos países árabe, provocado pela crise econômica e pela falta de democracia. Os países onde houve protestos foram Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmen e Bahrein, e a Síria foi a única que não conseguiu derrubar seu governo.

No protesto em Deraa, o governo usou armas letais contra o povo. Eclodiram, assim, protestos em várias partes do país, exigindo a renúncia de Bashar al-Assad e fazendo com que o clima de revolta se espalhasse. Por sua vez, a repressão se intensificou. Apoiadores da oposição pegaram em armas, primeiro para defender a si mesmos e depois para expulsar forças de segurança das áreas onde viviam. Nesse clima, Assad prometeu acabar com o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros”. Seguiu-se uma rápida repressão, que fez o país mergulhar em uma guerra civil.

Com essa guerra, que perdura até hoje, a situação é crítica. De acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG Britânica que monitora o conflito com base em uma rede de fontes locais,foram registradas 353.900 mortes até março de 2018, incluindo 106 mil civis. Esses dados não incluem ainda 56.900 pessoas que estão desaparecidas e 100.000 mortes que, segundo a ONG, não foram documentadas. Com esses números, podemos ver que a situação está longe de acabar. Na visão de várias nações, a perspectiva pode ser considerada a pior possível, porque, mesmo que consigam derrubar o atual presidente Bashar al-Assad, não há ninguém que possa substituí-lo, que consiga tocar o país para frente.

A nação síria se encontra fragmentada em vários pontos, com vários grupos reivindicando-na, seja por questões religiosas, culturais ou políticas. Vários grupos, como o Estado Islâmico e o Hezbollah, são considerados grupos terroristas, fazendo com que  países como Rússia e EUA entrem com uma intervenção direta, agravando não só o problema no país, mas criando questões geopolíticas que lembram a Guerra Fria, opondo EUA e União Soviética, e o temor de uma grande guerra.

Neste contexto é que se dá a crise geopolítica atual, envolvendo a Síria. Com o apoio do governo russo e iraniano ao governo do ditador Bashar al-Assad, os EUA, com seus aliados, Turquia, Arábia Saudita, França e Reino Unido, se veem obrigados a interferir. O estopim para que os EUA lançassem cerca de 105 mísseis, apoiados pelo Reino Unido e França, foi quando o governo sírio lançou gás Sarin na população, matando mais de 40 pessoas, segundo o governo estadunidense. Os líderes americano e britânico, Donald Trump e Theresa May, se pronunciaram após o ataque de gás, dizendo que retaliariam.

Em síntese, ao que tudo indica, a guerra na Síria está longe de acabar. Com uma perspectiva bastante ruim, a guerra poderá se estender. Com várias nações defendendo seus interesses, ameaças e retaliação, a situação está longe de ser controlada e resolvida. Além disso, as diversas culturas e grupos em guerra civil na Síria estão longe, também, de levar estabilidade para região. Essa dúvida gera medo e terror para o futuro, com incertezas sobre como será o desfecho dessa disputa.

MarceloLopez

Marcelo Lopez

Membro de finanças corporativas do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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