Diversificando portfólios com fundos quantitativos

A principal vantagem dos fundos quantitativos é a tendência a apresentar retornos positivos em momentos de stress para os demais fundos multimercados, reduzindo o risco de perdas sincronizadas em uma eventual virada de mercado – como ocorreu nos eventos do senador Delcídio do Amaral, na eleição do presidente americano Donald Trump ou na delação da JBS. Estas características tornam este tipo de fundo ideal para balancear portfólios e, embora ainda tenha pequena participação no Brasil, é uma categoria amplamente utilizada por investidores no exterior.

A busca por retornos maiores e Fundos Multimercados correlacionados

A redução da taxa básica de juros tem levado um grande número de investidores a migrarem da renda fixa para alternativas de investimentos que ofereçam um maior retorno potencial. Dentre os setores que mais têm se beneficiado com esta migração, estão os fundos multimercados com um volume expressivo de captação em 2018. O investidor, no entanto, encontra fundos multimercados altamente correlacionados dificultando a composição de uma carteira equilibrada.

O movimento recente em direção aos fundos multimercados não surpreende dado o desempenho positivo dos mesmos nos últimos cinco anos.   Utilizando o Índice de Fundos Multimercados do BTG Pactual como referência, vemos que o mesmo teve um retorno de 83.1% nos últimos cinco anos, completados em 30 de abril de 2018[1], superior ao CDI (69.8%) e ao Bovespa (54%).

No entanto, o gráfico abaixo também mostra que o próprio índice, que é uma carteira diversificada de fundos multimercados, sofreu perdas significativas em eventos que surpreenderam o mercado como a eleição do presidente americano Donald Trump ou a delação dos executivos da JBS. No caso da delação da JBS, a queda no dia 18 de maio de 2017 foi de 5.09%, superior a 19 desvios padrão. Quedas desta magnitude em carteiras diversificadas são um forte sinal de posições semelhantes entre os componentes do Índice.

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[1] O período utilizado em todas as análises deste texto é de 5 anos, de 30 de Abril de 2013 a 30 de abril de 2018. Fonte: Bloomberg

Apesar do susto do ano passado, parece que o problema de posições semelhantes entre os fundos multimercados ainda não foi corrigido. Pelo contrário, a análise da correlação média dos retornos dos últimos seis meses entre os componentes do IFMM[1] indica que a exposição atual, correlação média de 0.4, está próxima de seu máximo nos últimos cinco anos.  Ao observarmos a diferença entre a correlação medida com a inclusão ou ausência do “Joesley Day” ilustradas pelas linhas contínua e pontilhada no gráfico abaixo, vemos que a correlação em momentos de pânico pode ser bem maior que a correlação medida em períodos de relativa tranquilidade. Ou seja, a diversificação efetiva pode ser menor ainda quando mais se precisa.

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Fundos Quantitativos

E como os fundos quantitativos podem ajudar na diversificação? Fundos quantitativos aplicam o método científico ao processo de investimentos oferecendo um produto desprovido de potenciais vieses comportamentais como apego às posições ou comportamento de manada. Diferente dos fundos discricionários ou fundamentalistas normalmente baseados em portfólios relativamente concentrados e com poucas apostas por ano, os fundos quantitativos se baseiam numa quantidade enorme de dados históricos que suportam, preferencialmente, várias estratégias descorrelacionadas entre si aplicadas em um grande número de ativos.

Quant vs Discricionário/Fundamentalista

  Fundo Fundamentalista Fundo Quantitativo
Pesquisa ·      Quais companhias terão melhor desempenho?

 

·      Limite: sem limites

·         Qual o melhor modelo econométrico / machine learning para prever retornos?

·         Limite: disponibilidade de dados

Dados ·      Dados numéricos, relatórios, entrevistas/visitas ·         Enorme quantidade de informações numéricas e textos
Portfólio ·      Relativamente concentrado ·         Grande quantidade de ativos; processo sistemático
Vantagem ·      Análise profunda, conhecimento/insight proprietário ·         Rápido, processo de decisão escalável aplicado a um grande número de ativos livre de viés comportamental

[1] Utilizamos a composição do IFMM do final do terceiro trimestre de 2016 nas análises aplicadas neste texto para poder trabalhar com um número maior de fundos com histórico maior que 3 anos…

O princípio básico de um fundo quantitativo é que pequenas distorções detectadas nos dados históricos irão se repetir no futuro. Para realizar o ganho advindo destas pequenas vantagens, utilizam a estatística e as leis dos grandes números a seu favor.

É como se tivéssemos uma moeda que ao invés de ter chances iguais de cair cara ou coroa, tivesse uma probabilidade maior de cair em uma das faces. Digamos que esta vantagem fosse de 52% contra 48% e tivéssemos R$ 1 milhão para investir. Uma única aposta seria muito arriscada, e,  provavelmente, negada pela maioria dos investidores. Mas, se pudéssemos diminuir o valor do investimento individual e repetir a mesma aposta um número alto de vezes, quase todos provavelmente aceitariam a oportunidade uma vez que a chance de capitalizar a vantagem de 4% por jogo seria bastante alta.

Os fundos quantitativos utilizam um mecanismo semelhante para monetizar as vantagens de seus modelos se baseando numa grande variedade de ativos e estratégias descorrelacionadas entre si, como se estivessem jogando várias moedas em paralelo melhorando suas chances de sucesso. O resultado deste processo é um fluxo de retornos naturalmente descorrelacionado dos fundos tradicionais e, dado o pequeno tamanho dos fundos quantitativos no Brasil, uma excelente fonte de diversificação de carteiras.

Observando a correlação do fundo quantitativo Murano FIC FIM com os demais fundos do IFMM e principais indicadores econômicos, podemos ver o efeito de utilizar diversas estratégias e ativos distintos. O histograma de correlação do Murano FIC FIM com os componentes do IFMM, por exemplo, mostra que 99% dos fundos tem correlação inferior a 0.10 com o Murano FIC FIM. Uma diferença marcante dos demais componentes do IFMM que tem correlação média de 0.40 entre si. De fato, a correlação média do Murano FIC Fim com os demais é de -0.004, o que o torna o fundo mais descorrelacionado da amostra utilizada.

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A análise da relação com os índices mostra que o efeito da descorrelação também se estende aos principais indicadores econômicos como dólar e bolsa com correlação residual oscilando entre -0.10 e +0.10.

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Hedge de portfólio com fundos quantitativos. Case: MURANO FIC FIM

Alguns fundos quantitativos também possuem uma característica ainda melhor que a descorrelação com os demais fundos multimercados na proteção de uma carteira: a tendência de apresentarem retornos positivos em momentos de stress para os demais fundos multimercados.

No gráfico ilustrando a média de retorno diária de acordo com o quintil de retorno diário do IFMM, o que se observa é um comportamento convexo similar ao de um ativo comprado em volatilidade. Tanto nos 20% piores dias do IFMM (retorno médio diário de -0.17%) quanto nos 20% melhores dias do índice (retorno médio de +0.26%), o Murano FIC FIM apresentou seus melhores retornos (cerca de +0.13%).

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Os retornos positivos gerados quando o IFMM vai bem não são tão interessantes sob o ponto de vista de proteção de carteiras, já que o investidor também terá retornos positivos no resto de seu portfólio. Os retornos obtidos nos piores dias do IFMM, no entanto, são extremamente valiosos já que a maioria das carteiras de fundos multimercados provavelmente teve perdas significativas neste período. Nestes dias, o Murano FIC FIM alcançou o melhor resultado entre os componentes do IFMM com um retorno acumulado de 37%, superando significativamente o segundo colocado com 12% de retorno acumulado, oferecendo uma atraente opção de hedge.

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O impacto positivo da inclusão de um fundo como o MURANO FIC FIM, descorrelacionado e com tendência de retornos positivos nos momentos de stress para os multimercados, na proteção de uma carteira fica claro quando analisamos os resultados de sua inclusão em um portfolio de pesos iguais composto pelos 10 principais componentes do IFMM. Ao incluir o MURANO FIC FIM na carteira, o retorno médio da mesma sobe de 13.48% para 13.82% ao ano enquanto a volatilidade anual cai de 3.56% ao ano para 3.32%, apesar do MURANO FIC FIM ter volatilidade individual maior que os demais (10% contra média de 5.3%).

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Resultado: com apenas 1/11 aplicados num fundo quantitativo, conseguimos um fundo com maior Sharpe, maior Sortino, maior Skewness e menor drawdown[1]. E as maiores perdas dos momentos de stress mencionadas no começo do texto? Caíram de 4.14% para 3.71% no episódio JBS e de 2.13% para 1.59% durante a eleição de Donald Trump em novembro de 2016.

Enfim, o forte fluxo para fundos multimercados na busca de retornos superiores não é surpresa nenhuma no cenário de baixa da taxa de juros que estamos observando aliado a um maior acesso a fundos e educação financeira por parte do investidor. Uma próxima etapa neste processo de evolução, provavelmente, incluirá um melhor aproveitamento das características de hedge dos fundos quantitativos. Especialmente, se considerarmos o ambiente de alta incerteza que temos pela frente.

Moacir Fernandes (PhD em Finanças pela London School of Economics e sócio da Murano Investimentos)

[1] Percentual de queda do último máximo cumulativo obtido

A Órama Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizada pelas informações ou opiniões expostas acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações. As informações presentes neste Blog (https://blog.orama.com.br) podem ser baseadas em eventuais simulações e os resultados reais poderão ser significativamente diferentes.

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