Fundos após reunião do Copom

Mesmo com outros temas urgentes em pauta, não dá para não comentar as variações dos fundos após a última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC), com a decisão pela manutenção da taxa Selic no patamar de 6,5% ao ano. Coincidentemente, isso ocorreu no “aniversário” de um ano da divulgação do áudio da conversa de Joesley Batista com o presidente Michel Temer, que ameaçou a continuidade do governo.

Sem entrar no mérito se a decisão foi acertada ou não, compartilho da opinião de que, se a  escolha tivesse sido por mais um corte de 0,25 ponto percentual, as variações nos mercados teriam sido equivalentes às que sucederam a reunião. Ou seja, o real também teria depreciado, o prêmio de risco em renda fixa, aumentado e a bolsa, perdido pontos. Já havia um grupo bastante representativo que entendia que o Copom não deveria dar continuidade à redução da taxa básica de juros, a Selic, devido às mudanças no balanço de riscos e ao cenário externo menos favorável.

Resumindo, a incerteza aumentou e a volatilidade veio para ficar. Quem não conviver bem com elas, vai ter que se contentar com menos de 6% líquido ao ano de retorno nominal. Descontando a inflação, o retorno real esperado é bem baixo.

O real se depreciou

Os fundos que montaram proteção (hedge) com posições compradas em dólar, com o objetivo de preservar os recursos das adversidades que o cenário sinalizava, conseguiram defender parte das perdas provocadas pela depreciação do real.

No entanto, o fortalecimento da moeda americana em maio se deu em âmbito global. Assim, os fundos com posição direcional em dólar capturaram bem o movimento. Com destaque, o Gávea Macro, com exposição relevante em moedas, principalmente comprada em dólares contra outras divisas, entre elas o real. O Votorantim Cambial e o Órama Ouro também se beneficiaram.

Os fundos que carregam posições a favor do real incorreram em variações negativas, mas nada fora dos desvios esperados para os fundos.

O prêmio de risco em renda fixa aumenta

O mercado passou a exigir um prêmio ainda maior nas taxas negociadas nos mercado de juros. Por exemplo, o DI com vencimento em janeiro 2023, que estava há bastante tempo sendo negociado abaixo de 10%, ultrapassou 10,15%. Os juros reais das NTN-Bs, também de vencimento em 2023, saíram de 4,73% para mais de 5% ao ano.

Por isso, muitos fundos que esperavam extrair lucros dos gordos prêmios embutidos nas taxas mais longas sofreram com a marcação a mercado e vão ter que esperar um pouco mais para embolsar ganhos, de decidirem manter suas posições.

A bolsa perde pontos

Depois de oscilar várias semanas entre 83.000 e 86.000 pontos, o Ibovespa perdeu o patamar de 80.000 pontos.

Talvez o resultado do mercado acionário seja o mais fácil de explicar, pois é de conhecimento geral que os preços das ações oscilam fortemente. Em momentos de incerteza, até mesmo as empresas maduras e com potencial de valorização no longo prazo passam por ajustes nos preços em função da maior aversão ao risco. A manutenção da Selic, uma das variáveis mais importantes na formação do preço da ação, impactou negativamente os preços das ações.

Há muitas empresas brasileiras com potencial de valorização, mas os ganhos também dependem do fluxo de investidores e das expectativas para as eleições presidenciais.  

E os fundos?

Os fundos de renda sem risco de mercado, ou seja, aqueles que aplicam em títulos pós-fixados ou tomados em juros, passam bem por esta turbulência. Esses fundos são utilizados como colchão de segurança, pois amortecem os impactos negativos em momentos de alta volatilidade.

Os fundos de renda fixa que aplicam em títulos prefixados ou no mercado futuro de juros sofrem com a marcação quando o mercado passa a exigir maior prêmio pelo risco.

Aqui destaco o desempenho do Órama Debêntures Incentivadas e do Icatu Vanguarda Pré, que, apesar da variação negativa, ainda têm expectativas de bons retornos para o investidor no médio prazo.

Fundos multimercado

Na categoria de multimercado observamos comportamentos mistos. Os fundos com estratégia de proteção, que reduziram a exposição aos juros futuros ou à bolsa, antecipando qualquer adversidade, conseguiram defender a rentabilidade no mês. Neste grupo se destacaram o Adam Macro Strategy II, o Truxt I Macro, o AZ Quest Multi Max, o Paineiras Hedge II e também o Marejo Azul.

Estão apresentando perdas no mês o Mauá Macro, o Pólo Macro, o Garde D´Artgnan, o Ibiuna Hedge STH, o Flag FIC FIM, o Kapitalo Kappa D e o BTG Discovery.  No entanto, nada fora do esperado, de acordo com os mandatos de risco de cada um. Estes fundos conseguem alcançar bons retornos no médio e longo prazos, porque aplicam em diversos mercados e correm riscos calculados.

No atual conjuntura, o investidor que não se predispõe a correr algum risco vai ter que se contentar com o rendimento das aplicações financeiras abaixo de 6% líquido nominal ao ano.      

Fundos de ações

Estes estão acumulando perdas no mês. Uns mais do que outros, mas todos com variações negativas. Não tem como escapar das desvalorizações dos preços das ações quando o mau humor está contagiando.  Até mesmo as empresas com potencial de valorização no longo prazo são reprecificadas quando há maior aversão ao risco.

O Versa Long Biased, o Alaska Black II, o GTI Dimona, o Leblon Ações II e todos os outros fundos de ações da plataforma aparecem com variações negativas no mês.  

Apenas os fundos de ações de investimento no exterior mantiveram o status de rentabilidade positiva até o momento.

Lembra que desde o final do ano passado falávamos que a volatilidade se faria presente em 2018? Em momentos como este, as teses de investimentos são testadas, e o perfil do investidor é confrontado com o mandato de risco do fundo. Manter o controle é a ação mais indicada para superar esta etapa. Ainda teremos muita turbulência pela frente. Se você mantém um colchão de segurança em renda fixa entre 30% e 60%, vai conseguir passar bem por mais esta.

Escrito por

Consultora de investimentos da Órama autorizada pela CVM, CFP® e autora de diversos livros.

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