Itália: coalizão esbanjadora

Desde 4 de março deste ano, os italianos passam por um impasse político muito forte dentro do parlamento. Isso porque as eleições ocorridas no citado dia não resultaram em uma maioria na assembleia, fazendo com que o país passasse por 10 semanas de negociações, forte volatilidade na bolsa italiana e até medo de uma possível saída da União Europeia.

As eleições legislativas, em março, falharam em formar uma maioria. O Movimento 5-Estrelas, que é um partido anti-União Europeia, ganhou o maior número de cadeiras individualmente, 32,7% delas, enquanto uma aliança nacionalista de partidos de direita – que inclui os partidos Força Itália, de Silvio Berlusconi, e a Liga Norte – ficou com 37% das cadeiras. Dessa forma, como nenhum partido ou aliança obteve 316 cadeiras de 630, não foi possível nomear um primeiro-ministro. Quando tal situação acontece, existem duas saídas: ou os partidos procuram formar uma coalizão para obter maioria ou os eleitores voltam às urnas para outra votação.

Foi exatamente nesse momento que a instabilidade começou. Como o Movimento 5-Estrelas foi o mais votado de forma individual, foi o que primeiro se manifestou, mostrando-se aberto a negociações para formação da coalizão. Inicialmente se mostrou interessado em formar maioria com a Liga, porém impôs a restrição de que Silvio Berlusconi, empresário e ex primeiro-ministro, não pudesse participar do governo. O 5-Estrelas colocou tal restrição pois um dos lemas do partido é a renovação dos políticos do país, e Berlusconi basicamente representa os “políticos antigos”. Por causa disso, a negociação se estendeu por 10 semanas, o que provocou incertezas no mercado e na população, que não sabia se teria ou não que votar novamente.

Após muitas conversas, Berlusconi aceitou se retirar das conversas, permitindo que a Liga pudesse começar as negociações oficiais com o 5-Estrelas. Após alguns dias, os partidos entraram em acordo e indicaram Giuseppe Conte, que não possui vínculo partidário, para primeiro-ministro do país. O nome teria que ser aceito pelo presidente Sergio Mattarella, do Partido Democrático, o que aconteceu. Então, após a declaração oficial de que Conte se tornaria o primeiro-ministro, o mesmo começou a elaborar sua lista de ministros, o que, novamente, fez o país passar por incertezas.

Paolo Savona foi indicado para ser o ministro da Economia, mas seu nome foi rejeitado por Mattarella. Tal rejeição veio do fato de que Savona é anti-União Europeia, tendo inclusive citado um “plano B” para a saída do país da Eurozona. Dessa forma, Mattarella acabou com a coalizão e elegeu Carlo Cottarelli como primeiro-ministro interino, até ser decidido quando ocorreriam novas eleições.

Porém, o 5-Estrelas e a Liga aceitaram retirar Savona do cargo de ministro da Economia e negociaram novamente a coalizão, que, basicamente, foi apenas uma troca dos indicados para cada ministério, com Conte ainda sendo o primeiro-ministro. Giovanni Tria, professor universitário, foi indicado para assumir o Ministério da Economia, e Savona para o Ministério de Assuntos Europeus. E os líderes dos partidos também viraram ministros: o líder do 5-Estrelas, Luigi di Maio, tornou-se ministro do Trabalho e Indústria, enquanto Matteo Salvini, líder da Liga, tornou-se ministro do Interior.

A instabilidade política fez a taxa de retorno dos títulos do país subirem durante as conversas. Em 3 de maio, a taxa de rendimento do título de 10 anos italiano era de 1,74%, que chegou à máxima do ano, de 3,16% no dia 26 de maio, e atualmente se encontra em 2,69%. A oscilação é uma resposta do mercado pela incerteza em relação à coalizão do 5-Estrelas e Liga. Ambos os partidos são críticos da União Europeia e de suas regras orçamentárias. Eles têm propostas de aumentar os gastos do governo e de diminuir impostos, para favorecer o crescimento do país e reverter uma reforma da previdência feita em 2011, que aumentou a idade mínima de aposentadoria. Com isso, investidores se mantêm cautelosos, pois a Itália apresenta a segunda maior razão dívida/PIB da Europa (130%), apenas atrás da Grécia.

A coalizão italiana foi de extrema importância, já que preveniu um maior sell-off do mercado, com o medo de novas eleições. Contudo, tanto investidores, bem como a União Europeia, deverão se manter atentos ao país e a sua nova política de altos gastos governamentais.

JoaoMarceloCosta

João Marcelo Costa

Membro da área Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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