Apple: uma sinfonia em construção

      No que tange aos gêneros clássicos, um dos mais sublimes é a Sinfonia. Muitos são os que foram consagrados, nomes como Mahler, Beethoven e Mozart são constantes nas discussões acerca dos “allegros” e “adagios” de cada obra. Todos aqueles que atingiram o auge na carreira ficaram eternizados na memória dos apreciadores da boa música. Ao mesmo tempo, há outro sub-gênero que faz parte do seleto grupo da academia musical clássica: o Concerto. Em síntese, este é – em grande parte das composições – dividido em 3 partes, enquanto a Sinfonia é executada em 4 atos. Mas afinal, qual a relação desta introdução musical com o título do texto?

    Na última semana, a Apple ascendeu ao topo do mundo corporativo, tornando-se a primeira empresa a atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado. Com ações cotadas a US$ 207,05, tal fato só foi possível devido a uma série de fatores e combinações que acabaram por convergir. Mesmo com as intempéries vividas desde 2011 – quando Tim Cook sucedeu Steve Jobs como CEO – a empresa nascida no estado da Califórnia estabilizou-se e deu início às reformas internas, que corroboraram para as crescentes margens, as quais, por sua vez, contribuíram para a performance superior à de outras gigantes da tecnologia, como Amazon e Alphabet.

           Criado nos dormitórios da faculdade, o Apple I foi o primeiro expositor do que se tornaria um dos marcos da tecnologia mundial. Apesar de não ter feito um enorme sucesso, o rústico computador, munido de simples placas de circuito, deixou seus criadores – Steve Jobs e Steve Wozninak – com empolgação para dar continuidade aos trabalhos. Daquela experimentação inicial, surgiu o Apple II, aparelho que elevaria o empreendimento a níveis nunca observados no setor de tecnologia. Tendo como diferencial a beleza de sua interface gráfica e a interatividade, foi um enorme sucesso. Naquele momento – início dos anos 80 e década de 90 – a organização despontaria, em conjunto com a Microsoft, como uma das grandes e mais inovadoras corporações do setor. Contudo, entrando numa espiral de desvalorização e queda de vendas, acabou por flertar com a falência na metade de 1995. Nesse contexto, com o retorno de Steve Jobs – cerca de 20 anos depois – ao cargo de comandante maior, se deu a real escalada da empresa, rumo ao ponto mais alto.

          Tendo relutado em assumir a posição, Jobs retornou ao campus da Apple num momento crucial  para seu novo empreendimento, a Pixar. Fazendo uma série de reformas, introduziu medidas que reajustaram as contas da organização, tais quais:

  • Reaproveitamento da marca: Jobs tinha uma ampla compreensão no que se referia à marca Apple. Diferentemente dos dirigentes anteriores, sabia que, muito além dos produtos em si, o cliente via na logomarca algo que a diferenciava das demais (Microsoft, IBM, Xerox etc). Desse ato, acrescentando compassos primordiais de reorganização da instituição, surgiu o famoso concurso que resultou num dos comerciais mais vistos da história do Super Bowl.

 

  • Exauriram-se os clones: uma prática que representava bons lucros para a organização era o comércio da modalidade de cópias, mais conhecidas como clones. Comumente executada no período que antecedeu à grande crise interna, a modalidade permitia que produtos com a logo da empresa fossem fabricados por marcas como Motorola, Max e Power Computing. Tal ação se tornou bastante popular em meio aos usuários, visto que acabava por baratear os produtos. Jobs optou por cortar todos os tipos de concessões. Foi um passo estratégico, visto que daria o tom onipresente em toda a linha de produtos da empresa: a exclusividade, com alto padrão. Logo, no fim dos anos 1990, restaria apenas a Microsoft como grande concorrente.

 

  • Apoio inesperado: numa das manobras mais estudadas pelo mercado – devido à sua complexidade – Steve Jobs fechou uma série de acordos com o conglomerado de Bill Gates. Após resolver numerosos imbróglios referentes aos processos de patentes – movidos pela própria Apple -, o CEO da firma conseguiu com que a Microsoft, publicamente, fizesse um aporte de US$ 150 milhões em seus papéis. Embora tal valor possa soar como irrelevante para uma organização já consolidada no mercado, a negociação acabou por transpassar confiança ao mercado.

Desta forma, seria a trajetória da Apple, afinal, uma história uníssona – um Concerto -, na qual amargou os piores momentos antes da glória, ou a mesma tornaria-se, após as reformas promovidas por Jobs, apenas mais uma entre as gigantes do setor, concorrendo nos mesmos nichos e segmentos?

Não há muito o que se discutir. O tempo acabou por coroar a sábia decisão dos conselheiros em adquirir a NeXT, trazendo Jobs de volta às salas da empresa. Em 2007, seria dado o mais ousado passo da marca, quando trouxe ao mundo sua grande inovação: o Iphone. Como o “Allegro” de uma composição, a criação de um novo nicho elevou a novos patamares o conceito que se tinha quanto à marca, que já chegou a corresponder, em números reais, a mais da metade das vendas de smartphones em todo o globo.

Com um ciclo de crescimento exponencial entre 2007 e 2012, a saída do fundador foi uma transição não muito confortável para a empresa. O Iphone 5 – um choque no mercado, pois era o primeiro com tela de 4 polegadas – e a atualização da linha de Ipads foram as últimas participações de Jobs na companhia. Naquele mesmo ano, a Apple acabou ostentando o título de empresa mais valiosa do mundo, cotada em US$ 620 bilhões. Desde então, vinha sem grandes apostas e visando apenas a continuidade de seus produtos. Essa prática – que não fazia parte do modus operandi corporativo – acarretou na queda de vendas do Iphone na transição 2015-2016, fazendo com que a receita caísse, levando consigo o valor de mercado.

Ao fim daquele ano, a organização, outrora avaliada em US$ 700 bilhões, amargou uma queda representativa e caiu para os US$ 500 bilhões. Os balanços aumentaram a pressão quanto às expectativas de melhores resultados. Muito especulou-se acerca da companhia se manter como líder de mercado.

Foi nesse contexto, com os acionistas cobrando maiores resultados e o CEO Tim Cook sob pressão, que veio o salto rumo às máximas históricas: o lançamento do Iphone X. Num pacote que incluía mudanças de design e revitalização do sistema operacional, o alto preço (US$ 1.000) não foi barreira para que os clientes mantivessem a fidelidade aos produtos da marca, o que resultou em sucessivos balanços positivos e valorização dos papéis.

Portanto, refazendo a trilha histórica, Cook seguiu os passos de Jobs: o Iphone X está para a Apple de 2018 como o Apple II estava para a Apple de 1977.

    

José Wellington (1)

José Wellington

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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