Crise monetária na Turquia: a liquidação da moeda

    Uma das principais bases, se não a mais importante, que estrutura a economia de um país, é a sua moeda. Dependendo do quão representativo é seu peso, o cenário, tanto político como econômico, se altera completamente. Crises cambiais, que nada mais são do que uma desvalorização expressiva da moeda local perante o dólar americano (moeda que rege a economia mundial), são mais vistas em países emergentes. O país da vez é a Turquia, que está passando por uma grave desvalorização de sua moeda, a lira turca. Essa situação que o país se encontra é parecida com a que é vista na Argentina.

        Para entender melhor a adversidade, é necessário saber como se originou. Os Estados Unidos e os países europeus estavam adotando uma medida de “quantitative easing”, baixando suas taxas de juros desde a crise de 2008. A Turquia cresceu ao longo dessa última década devido ao grande investimento de capital externo no país, com investidores buscando uma maior rentabilidade de seus títulos, em relação aos de menor rentabilidade mas com maior segurança. Com o fim dessa política monetária, os investidores estão voltando a depositar seus capitais nessas praças, e o governo turco está preocupado em não conseguir o financiamento necessário, estimado em US$ 218 bilhões. O problema começa aí. A partir do momento em que há uma fuga de capital (dólar), diminuindo a sua oferta, a moeda local se desvaloriza em relação ao dólar. Para se ter uma ideia, neste ano de 2018, a lira turca já se desvalorizou mais de 40%, e no momento em que está sendo escrito este texto, a cotação foi de US$ 1 para 6,47 liras.

        O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, defende que a crise que o país vive é fruto de ataques de outros países, com a intenção de derrubar o governo. O fato é que há a possibilidade de haver um pânico bancário, por meio da retirada por investidores de fundos de renda fixa e variável. Erdogan demoniza o aumento da taxa de juros para conter as suscetíveis quedas que a lira vem enfrentando. Para ele, o aumento da taxa é uma ferramenta de exploração, ocasionando o enriquecimento dos ricos e empobrecendo os pobres. A política econômica heterodoxa de seu governo assusta investidores nacionais e estrangeiros. O motivo pelo qual o presidente turco está sendo pressionado a aumentar a taxa são os altos níveis de inflação causados pela depreciação de sua moeda, tornando as importações mais caras.  

        Apontadas por muitos como o gatilho para tal crise, as sanções econômicas impostas pelo governo Trump à Turquia não chegaram na melhor hora. Essas imposições são sobre a taxação do aço e do alumínio turcos, que passam a ser de 50% e 20%, respectivamente. Isso ocorre devido ao desgaste entre as duas nações, após o país euro-asiático se negar a libertar um pastor americano que, supostamente, participou de uma tentativa de golpe militar.  

       Em um mundo globalizado, a Turquia não é a única a ser afetada por esta crise. Alguns bancos europeus, que prestam serviços e possuem capital no país, sofreram consequências adversas, tais como BBVA, UniCredit e BNP Paribas. Dada à exposição dos referidos bancos às adversidades turcas, suas ações registraram grande volume de vendas no índice Stoxx Europe 600, ocorrendo assim, uma desvalorização significativa de seus papéis. Moedas de outros países emergentes também obtiveram desvalorização frente ao dólar, como no caso do zloty polonês e o rand sul-africano. Aqui no Brasil, o Ibovespa, na sexta-feira (10/08), sentiu a turbulência turca e operou em baixa, com uma desvalorização de 2,86%. O real também se desvalorizou perante o dólar, chegando à cotação de R$ 3,90.

        Na mesma sexta-feira, o Ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, genro do presidente, anunciou um novo plano econômico, para curto, médio e longo prazos. A prioridade será dada ao controle da inflação e à disciplina fiscal, a fim de restaurar a saúde financeira da Turquia. Reformas estruturais também foram prometidas pelo ministro. O mais importante para o país é fazer com que os investidores voltem a ter confiança no mercado nacional. Entretanto, esse anúncio do governo sobre a proposta de coordenação de mudanças não foi bem detalhado, havendo, assim, muitas especulações.

        Como na economia toda ação tem uma reação, a solução ideal não resolveria todos os problemas. Porém, visando estancar a sangria desta forte crise econômica, em primeiro lugar, do ponto de vista de muitos, seria necessário aumentar as taxas de juros (atualmente está em 17,75%). Com esse aumento, o consumo na Turquia iria desacelerar, mas a ação combateria a inflação de mais de 15% ao ano, e a lira turca poderia ganhar certo suporte em relação ao dólar, diminuindo suas perdas. Os cortes de gastos atrelados ao aumento dos impostos tornariam o país menos dependente do capital estrangeiro e ainda ajudariam a reduzir o déficit em conta-corrente, que nos dias atuais é equivalente a 5% do PIB.

        Agora tudo depende de Erdogan, que é muito conhecido pelo seu caráter autoritário. Como dito no texto, ele já disse publicamente que é contrário a essas políticas monetárias mais duras, que podem afetar o povo turco. Além de todos os problemas citados, há outro que pode ser um dos geradores de crises: o autoritarismo. O presidente turco possui poder e influência, sendo detentor do cargo de líder do país há bastante tempo. É possível que não seja suficiente fazer todas essas reformas discutidas, uma vez que o principal problema, possivelmente, pode estar no pensamento conservador de quem comanda.

 

GabrielSoaresGabriel Soares 

Membro da área Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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