Desdobramentos acerca da máquina econômica chinesa

A China, com toda sua expressiva influência sobre os mais diversos aspectos da economia e dos mercados mundiais, atravessa um dos momentos mais desafiadores e incertos no que diz respeito à sustentabilidade da sua expansão econômica. Sendo oficialmente reconhecida como a segunda maior economia do planeta em termos de PIB, são numerosos os entraves (tanto domésticos quanto externos) que tornam consideravelmente mais complicada a manutenção do crescimento no ritmo que o mercado está acostumado a testemunhar. De maneira quantitativa, as previsões de avanço econômico para 2018 e 2019 são de, respectivamente, 6,6% e 6,4%, ante crescimento de 6,9% em 2017.

O modelo econômico chinês é tido como de complexo entendimento, comumente chamado de “socialismo de mercado”, com um planejamento ainda bastante centralizado e órgãos estatais reguladores de diversos setores da economia. Ao mesmo tempo, é aberto ao comércio e a investimento externos, ainda que com algumas ressalvas, dado que, desde 2015, o governo chinês promove com maior rigidez o controle de fluxo de capitais e o supervisionamento de investimentos externos para melhor controle da taxa de câmbio e a manutenção da estabilidade financeira.

Durante muito tempo, o modelo de crescimento chinês foi baseado nos investimentos e nas exportações. Entretanto, formuladores de política do país mostram intenção de alterar esse padrão, fazendo com que o desenvolvimento da economia seja impulsionado pelo consumo doméstico. O objetivo maior de tal empreitada, segundo os próprios agentes do governo, é tornar a economia menos dependente das atividades externas e da indústria pesada. Contudo, a maior barreira ao êxito do planejamento é a mesma situação observada no vizinho Japão. São questões meramente culturais, visto que, de forma similar aos japoneses, os cidadãos chineses não possuem hábitos consumistas, isto é, tendem a poupar mais do que gastar, cabendo, então, ao planejamento governamental fornecer um cenário favorável e estimulante ao aumento dos gastos internos.  

A China passa por um período de esfriamento de seu avanço econômico, em grande parte pelos motivos acima dissertados. Esse processo se revela cada vez mais evidente, e as companhias de manufaturas começam a cortar empregos, sendo a maior demanda por mão-de-obra protagonizada pelo setor de serviços. Como forma de conservar a estabilidade do mercado de trabalho, empresas estatais continuam mantendo funcionários, mesmo em setores em que não há necessidade.

Entre as maiores causas para os seguidos cortes nas projeções de expansão chinesa, merecem destaque os efeitos causados pelas tensões de relação comercial com os EUA e as diversas medidas tomadas pelo governo visando aprimorar as condições financeiras e sociais. Os desacordos comerciais entre as duas maiores economias do planeta têm sido fonte de grande volatilidade nos mercados financeiros globais, devido às consequências que esses eventos trariam ao crescimento econômico e ao livre comércio mundial. Desde o acirramento das divergências entre EUA e China, em abril, o yuan (moeda chinesa) se depreciou mais de 8% se comparado ao dólar, enquanto o benchmark, o CSI 300, teve recuo de mais de 15%.

Embora oficiais do governo norte-americano tenham acusado o país asiático de desvalorizar a própria moeda para compensar os efeitos das tarifas impostas sobre bens chineses importados, a explicação mais crível por analistas de mercado é que a própria China não tem interesse em ver o yuan em estado de depreciação acentuada, devido às implicações que isso causaria sobre o poder aquisitivo de consumidores e firmas chineses.

Do ponto de vista doméstico, maior atenção foi dada à campanha de Pequim para cortar o excesso de capacidade de produção da indústria e reduzir a emissão de poluentes pelas fábricas, considerando o significativo impacto negativo que isso poderia trazer para a atividade econômica geral. Um dos exemplos mais válidos do receio observado nos mercados em meio à intensificação de tal campanha, foi a forte desvalorização do preço do minério de ferro, principal termômetro da performance industrial.

Ainda no que tange a pontos de desequilíbrio interno, cita-se a questão do mercado imobiliário local, enxergado por muitos como a principal fonte de risco ao país nos próximos 12 meses, graças ao superaquecimento no mesmo. Como tentativa de contenção do possível estouro dessa bolha, o governo procurou restringir a compra de propriedades nas maiores cidades da China, como Pequim e Xangai, com objetivo final de limitar futuros inchaços nos preços. Contudo, dadas maiores restrições, as vendas passaram a ser mais focadas nas cidades de menor porte. Para se ter uma ideia da situação, o preço médio de vendas de imóveis nessas cidades subiu 28%, de janeiro de 2016 até maio de 2018. O investimento imobiliário é responsável por compor cerca de dois terços dos ativos domésticos chineses, além de ter um importante papel nas receitas dos governos regionais, empréstimos bancários e investimentos corporativos. Assim, uma desaceleração acentuada no crescimento do referido mercado e, por consequência, queda nos preços, causaria impactos negativos expressivos no desenvolvimento geral da economia.

Nos últimos dias, o anúncio da possibilidade de retomada de conversas entre EUA e China acerca dos acordos comerciais elevou o tom positivo dos mercados globais. Em meio ao bom humor internacional, o órgão regulador bancário chinês solicitou às instituições bancárias que impulsionassem os empréstimos para projetos de infraestrutura e exportação, com o intuito de aprimorar a confiança econômica. O banco central da China, o People’s Bank of China (PBOC), informou que manteria ampla liquidez e ofereceria suporte extra às companhias em dificuldade de obter financiamento, acrescentando que não utilizaria estímulos monetários para dar novo fôlego à economia em desaceleração.

Os próximos desdobramentos deverão estar diretamente relacionados com o desenvolvimento das conversas entre as duas nações. Dependendo do progresso (ou regresso) obtido, as perspectivas com o futuro da China, em um prazo de três ou quatro anos, podem ser significativamente alteradas.    

 


   Pedro Tonazzi

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

  

 

 

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