Austrália: a metonímia do mundo anglo-saxão

No que concerne aos grandes impérios, é comum atribuir aos britânicos a honraria de último grande brasão que outrora reinou de ponta a ponta no globo. Tendo sido um ávido agente da política, comércio, desenvolvimento, guerra e história mundial, o Império Britânico teve seu declínio iniciado logo após a Primeira Guerra Mundial, devido aos rearranjos geopolíticos do Velho Continente. Com a Segunda Guerra Mundial e sua incapacidade de defender-se sozinho das investidas alemãs, a Grã Bretanha viu gloriosos séculos de protagonismo tornarem-se história, perdendo a hegemonia de poder. Apesar dos “pesares”, após o repasse de Hong Kong para a China, emergiu uma nova categoria de classificação para o futuro da comunidade.

Com a Commonwealth (criada em 1926) tornando-se o novo modelo de integração e manutenção de laços entre países que já foram colônias – com exceção de Ruanda e Moçambique -, alguns países continuaram em uma trajetória de crescimento constante, subindo também nos rankings de qualidade de vida e renda. Dentre esses países, destaca-se a Austrália. Assim como o Canadá e a Nova Zelândia, o país sempre figurou como símbolo de estabilidade política e exemplo de combate à corrupção. Reconhecendo a Rainha Isabel II como Chefe de Estado,o país orquestrou seu arranjo interno nos moldes semelhantes ao de seus seus congêneres. Contudo, nos últimos 11 anos, uma onda de insegurança política e partidária passou a ocupar os gabinetes do parlamento local.

Desde 2007, passaram pelo cargo de primeiro ministro um total de 7 nomes. Os motivos de alternância englobam desde derrota nas reeleições até escândalos sexuais de repercussão internacional. No dia 24 de agosto deste ano, ascendeu ao poder o até então ministro das Finanças, Scott Morrison. Quase que por “convenção”, tal cargo serve como incubadora para o futuro primeiro ministro do país. Diferente de seu antecessor, Morrison chega ao poder com um discurso mais conservador – devido a suas posições religiosas – e também intransponível para questões que passaram a ocupar relativa apreciação nos debates públicos do país, como a imigração ilegal.

A vitória de Morrison representa um novo paradigma na política australiana. Sendo formado em Geografia Econômica pela Universidade de New South Wales, Scott John Morrison ingressou na política discretamente, como diretor do Liberal Party da Austrália, em New South Wales, tendo exercido a função até 2004. Ao ser eleito pela primeira vez, em 2007, o mesmo acabou por se envolver em polêmicas, principalmente em relação ao eleitorado regional, frente à oposição. Contudo, seu nome viria a ganhar maior destaque em 2014, quando coordenou pessoalmente a operação que ficou conhecida popularmente como “fronteiras soberanas”, visando combater a chegada ilegal por via marítima.

Com o PIB tendo crescido cerca de 1% no primeiro trimestre e 3,1% em relação ao ano anterior, o país transita sem maiores dificuldades no que tange a contas públicas e políticas monetárias. O grande debate local fica por conta da descontinuidade dos últimos dirigentes do país, com muitos passando pouco menos de 2 anos no poder. Nos últimos meses, período que antecedeu a nomeação de Morrison, houve uma espécie de tripartição pelo comando do Partido Liberal. Turnbull, que era o primeiro ministro, viu sua liderança ser ameaçada pelas alas mais conservadoras do partido, mesmo sendo de base governista. Ao lado do ex-ministro do interior Peter Dutton – que até então soava como favorito, contando com considerável apoio – e da ministra das Relações Exteriores, Julie Bishop, Morrison concorreu ao pleito e venceu por 45 votos. Nesse contexto, ficou explícita a derrocada da imagem de Turnbull frente aos membros de seu próprio partido e coligação. No início da semana, o próprio Dutton havia se insurgido contra o premiê, fato que acarretou na retirada de apoio por parte de uma sequência de figuras seniores do governo.

A consolidação de sua retirada do governo teve seu capítulo final decretado na última sexta-feira, através da convocação para uma segunda votação. Tendo dito anteriormente que renunciaria automaticamente caso fosse deposto, Turnbull cumpriu à risca sua promessa. A saída do 6° líder num intervalo de 11 anos colocaria qualquer país latino-americano num patamar de desconfiança, pois passaria insegurança no que concerne às condutas públicas e, talvez, compromissos externos. Porém, o caso australiano possui algumas variáveis endógenas que merecem profunda atenção.

Na economia, o cenário segue uma linha contínua de estabilidade nas últimas décadas. Com um rating AAA, a economia australiana anda a passos largos de crescimento (serviços). Baseando-se em uma dívida pública moderada e eficiência fiscal, espera-se para o ano de 2018 um crescimento do PIB de 2,9%, e 3% para o ano de 2019. Com um PIB de valor monetário na casa dos 1,3 trilhão de dólares (2017), as expectativas seguem positivas no médio prazo. Quanto ao desemprego, o mesmo transita entre 5,2% e 5,5%. Para os anos seguintes, estima-se que tal taxa pode bater incríveis 3,5%, ao mesmo tempo que a inflação se restringe a 2,4% este ano.

Contudo, apesar da crescente participação do setor de serviços, as exportações ainda representam grande parte da renda local. Ao analisar-se o prognóstico do setor agrário, a cautela acaba por ditar o ritmo dos investidores e produtores nacionais. Sendo considerado um dos territórios mais secos de todo o globo, a Austrália vive uma crise sem precedentes recentes na sua malha hídrica. Setores como rizicultura (arroz) ano após ano apresentam performances negativas, visto que a produção, outrora colhedora de 1,2 milhão de toneladas por safra, despenca para 18 mil toneladas, retornando aos números de 1927.

A queda nos números do agronegócio foi tamanha que o governo se viu obrigado a intervir com pacotes de auxílio fiscal e injeção setorial. Um dos últimos atos de Malcolm Turnbull como chefe de governo foi uma transferência de US$ 104 milhões para auxílio psicológico e familiar. A região de New South Wales (do próprio Morrison) – que é a mais rica do país – já atingiu os 99% de seca em alguns períodos de 2018.

No âmbito social e comercial das últimas três décadas, a Austrália vivenciou um crescimento exponencial e tornou-se um dos melhores cases no que abrange o debate sobre organização e conflitos democráticos. Com uma economia acostumada às altas demandas chinesas por commodities, o país viu sua população saltar com base em imigração e mão de obra qualificada. Porém, nos últimos anos, com a diminuição da demanda e o crescente número da população, os australianos viram crescer a necessidade de maior investimento em áreas como saúde e habitação. Nesse contexto, os partidos da base governista concordaram em restringir gradualmente o acesso de imigrantes. Devido à exportação de produtos em estágio bruto, a maioria dos empregos não se encontra nas grandes cidades.

O governo, embora consiga formar sua base de maneira que não saia das diretrizes, mantém-se instável quanto ao comando. O Partido Liberal acaba por se dividir em duas alas, sendo uma mais conservadora e outra progressista. Logo, mesmo concordando em algumas pautas, a grande maioria da base governista não se vê representada pela governança. No curto prazo, espera-se que a figura política de Scott Morrison venha a sanar as reivindicações internas, assim como saiba conduzir as relações com a oposição. No momento, a Austrália busca apenas reconciliar-se com seus anseios ideológicos, almejando o equilíbrio que a retire da crise de identidade vivida nos últimos 11 anos.

 

José Wellington (1)

José Wellington

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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