Crise Cambial Argentina: uma trajetória em ascensão

No início do século XX, nossa vizinha Argentina era a décima nação mais rica do globo em termos per capita. O retorno do país ao padrão-ouro em 1899, após décadas de instabilidade econômica, proporcionou uma taxa crescimento média anual de 7,7% durante 14 anos. No entanto, a Grande Depressão de 1929 trouxe um desequilíbrio tremendo à economia dos argentinos, além de uma instabilidade política que acarretou no golpe militar de 1930, dando início a uma sequência alternada de governos populistas e juntas militares, que se mantiveram no poder até os anos de 1980. Tudo isso atrelado a medidas protecionistas, que tiveram seu fim em 1976, sob comando de Jorge Rafael Videla. Mas as décadas de protecionismo fizeram com que diversas indústrias sucumbissem à concorrência externa, e o governo argentino assumisse suas dívidas. Paralelamente, medidas populistas de aumentos salariais também impulsionaram uma crescente inflação de preços, que chegou a 800% ao ano.

Em 1989, a economia argentina enfrentava uma situação muito delicada sob o mandato de Raul Alfonsín, com aumento de suas despesas (folhas de pagamento), enquanto as receitas permaneciam estagnadas, com recebimento de imposto de renda de apenas de 30 mil cidadãos, num país de 30 milhões de argentinos. Aquele momento gerou uma hiperinflação que fechou o ano em 1344% e uma queda de 6,2% no produto interno bruto. A situação era ingovernável, forçando a passagem do cargo presidencial de Alfonsín para Carlos Menem, em 1990. Em abril de 1991, houve a idealização de um plano de combate à inflação que tinha como premissa a paridade cambial de 1 para 1 entre o peso argentino e o dólar. Tal medida refletiu em consequências como a redução rápida da inflação, a queda no nível de pobreza, além do aumento das reservas internacionais de US$ 3,81 bilhões em 1989 para US$ 17,93 bilhões em 1994.

A situação econômica estabelecida no fim dos anos 90 por meio do regime de conversibilidade proporcionou uma inflação em 1 dígito, sem fuga de capitais nem ataques especulativos, abrindo a possibilidade de tomada de empréstimos. Em contrapartida, o fim desse regime era previsto pelo mercado, antevendo uma possível desvalorização do peso argentino a qualquer momento. Em paralelo,  uma crise de corrupção em 1999 – com a saída de Carlos Menem da presidência – acarretou em nova depressão econômica no país, que se agravou ferozmente em 2001, com a taxa de juros interbancários atingindo 50% e uma taxa de desemprego de 20%. Assim, o regime de paridade foi revogado oficialmente, causando a desvalorização do peso argentino e a alta inflacionária, forçando o país a interromper o pagamento de US$ 100 bilhões em dívidas externas, concretizando o maior registro de calote da história.

 Após o calote histórico, a recuperação do mercado de capitais argentino se tornou debilitada desde aquela época, visto que os investidores criaram aversão ao país, pelo risco de não receber posteriormente. Nesse contexto, previamente à crise econômica aguda a qual a Argentina enfrenta este ano (2018), pode-se ressaltar também a volatilidade crescente do câmbio no país ao longo dos anos, fruto de um desinvestimento produtivo e financeiro no país, em paralelo a políticas monetárias e fiscais ineficientes que, em suma, proporcionaram gastos muito maiores que arrecadações e levaram a economia a tal situação insustentável.

O que se observa desde o início deste ano é uma verdadeira luta generalizada do Banco Central da Argentina (BCRA) contra a apreciação do dólar perante o peso, e a necessidade de capital para financiar o endividamento do governo. Em maio, a escalada do dólar levou o BCRA a elevar as taxas de juros de 22% para o patamar de 40%, em meio à tentativa falha de evitar a fuga de capitais de investidores estrangeiros da economia argentina e controlar a inflação – que beira os 25% ao ano -, além de se desfazer de US$ 7,3 bilhões de suas reservas internacionais. Em paralelo, recorreu a um pedido de empréstimo ao Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de US$ 30 bilhões, que equivale à metade do total de reservas internacionais argentinas, conseguindo temporariamente estabilizar sua moeda.

Todavia, a crise voltou a se acentuar em agosto, frente à preocupação iminente dos investidores de que houvesse inadimplência por causa do esforço do governo para honrar suas dívidas. O peso argentino continuou a cair e acumulou uma desvalorização de mais de 45% contra o dólar este ano. Além disso,  o BCRA promoveu novo aumento na taxa básica de juros, de 45% para 60%, o nível mais alto do mundo, numa tentativa de conter a inflação e a dramática crise cambial. Dessa forma, o governo de Mauricio Macri pediu – dia 29 de agosto – um empréstimo ao FMI de US$ 50 bilhões – o que causa uma sensação de desespero e gera críticas ao Fundo pela população, por incentivar políticas fiscais que culminaram na crise de 2001. Entretanto, o FMI comunicou que revisará o plano econômico do governo, com foco em isolar a Argentina das recentes mudanças nos mercados globais.

Quando se analisa tal problemática, deve-se ter em mente que a economia argentina é uma das maiores economias da América do Sul, sendo classificada como parte dos mercados emergentes. Logo, a aversão ao risco exaltada pela crise cambial na Argentina pode ser um fator muito negativo para outras economias em desenvolvimento, como o Brasil e a Turquia, por exemplo. Fora isso, há a histórica parceria comercial entre Brasil e Argentina, ou seja, as exportações brasileiras tendem a sofrer impacto, principalmente no setor automotivo.

Um futuro complicado está encomendado para a Argentina, e aos emergentes. Deve-se ter em mente ainda que quaisquer movimentos externos – como políticas monetárias do FED, por exemplo – também afetam o cenário. Assim, só resta à Argentina implementar uma estratégia para sua sobrevivência em primeiro plano, de forma a evitar nova catástrofe, como a ocorrida em 2001.

 

JorgeLucasMarques Jorge Lucas Marques 

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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