Desaceleração econômica, tensões comerciais e o comprometimento pela retomada do crescimento mundial

Em meio a crescentes tensões comerciais e geopolíticas, atualmente o cenário econômico mundial se encontra consistentemente conturbado. Por conta dessas instabilidades no comércio intercontinental, desde o final do ano passado a economia global está apresentando um desempenho abaixo do esperado. Os resultados negativos que prevaleceram nos dois primeiros trimestres deste ano fizeram com que a Organização Mundial do Comércio (OMC) reduzisse a projeção do crescimento das negociações entre as nações para o ano de 2019. Preocupações como essas fizeram com que os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais dos países que formam o G-20 – as maiores economias desenvolvidas e emergentes – se comprometessem em executar políticas que tenham o objetivo de alcançar a retomada do crescimento mundial para o ano de 2020.

O progressivo protecionismo dos Estados Unidos, que gerou o conflito tarifário com a China, está causando graves danos ao crescimento econômico mundial. Foi divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) um documento que estima que, desde o início do embate, exclusivamente as tarifas impostas entre as duas grandes potências irão causar uma redução de 0,5% no desenvolvimento global do ano subsequente. Para somar aos temores dos líderes de nações do G-20, há alguns dias, Washington ameaçou impor um aumento de tarifas sobre bens mexicanos. Felizmente, as duas nações conseguiram chegar a um acordo que evitou a repressão estadunidense.

Há gradual pressão de grandes potências mundiais para que sejam encerradas essas tensões comerciais, eliminando tarifas já impostas e evitando novas elevações, em busca do crescimento sustentável mundial e elevando a proteção contra riscos. Esse fator, em conjunto com dados recentes americanos que demonstraram uma fraca atividade industrial, um crescimento do mercado de trabalho muito abaixo do esperado e uma inflação abaixo da meta, pode resultar em uma mudança na política do Federal Reserve no que diz respeito à taxa de juros dos Estados Unidos. Tudo indica que o país – que desde 2016 acrescentou 2 pontos percentuais nos juros em dois anos – pode passar a cortar os juros mais uma vez.

A decisão de elevar as taxas de juros foi feita há alguns anos. No entanto, em dezembro do ano passado, uma reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto decidiu suspender o aperto monetário, por conta das oscilações do comércio mundial. Na época, as tensões comerciais e a paralisação parcial do governo ameaçavam a continuidade da expansão econômica dos EUA. Hoje, apesar da declaração feita no final do ano passado, de que os juros deveriam ser mantidos dentro do intervalo de 2,25% e 2,5% pelo restante de 2019, o mercado futuro dos federal funds vê uma probabilidade de 95% de o Fed reduzir os juros na reunião de setembro, ou possivelmente até antes.

Explicando alguns pontos mencionados acima. O relatório de emprego dos Estados Unidos constatou um incremento líquido total de 75 mil vagas de trabalho no mês de maio, número bem inferior ao consenso de 180 mil que foi previsto por analistas. A taxa de desemprego do país se manteve em 3,6%, e o salário médio por hora aumentou 3,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Este último dado foi alarmante, pois manifesta um crescimento menor em comparação aos meses de abril e fevereiro. Para complementar os maus resultados americanos, a inflação subiu 1,6% em abril, em comparação com o ano anterior, o que representa um valor abaixo da meta do banco central, de incremento de 2%.

Tais resultados, como a diminuição da contratação americana, evidenciam que as empresas estão adotando uma atitude mais cuidadosa, em virtude da desaceleração econômica e das tensões comerciais. O Fed, assim como outros bancos centrais das maiores economias desenvolvidas e emergentes, está disposto a fazer o que for possível para sustentar o crescimento da economia mundial. Segundo diretores do FMI, para que essa meta seja factível, a política monetária dos países deveria permanecer dependente dos dados e acomodatícia. Durante a última reunião do G-20 em Fukuoka, os países se comprometeram a utilizar todos os instrumentos de política econômica, incluindo fiscal, monetária e reformas estruturais, para garantir um progresso mais consistente da economia global.

Diante desse cenário, é grande a possibilidade de que o Federal Reserve realize um corte nos juros nos próximos meses. O próprio banco central americano não costuma efetivar políticas por ação de indicadores isolados, ele se fundamenta pelo quadro amplo traçado pelo agrupamento de referências econômicas. Todavia, no momento presente, a combinação do decrescimento do mercado de trabalho, a inflação moderada, além de baixo consumo e investimentos estão indicando que a economia dos Estados Unidos não está progredindo como deveria. Esses aspectos, somados à escalada nas disputas comerciais, reforçam as alegações a favor do afrouxamento monetário. Isto posto, o presidente do Fed, Jerome Powell, informa que está monitorando os desdobramentos atentamente e que vai agir apropriadamente para sustentar o crescimento americano e contribuir na retomada do desenvolvimento mundial.

 

2019-01-16André Christoph

Membro de análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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