Os desafios do crédito privado

Por Sandra Blanco

Consultora de investimentos da Órama.

Os juros baixos e as boas perspectivas para a economia, tendo em vista a aprovação da reforma da Previdência e as demais medidas da agenda da equipe econômica, sob o comando do ministro Paulo Guedes, estão gerando novas oportunidades de negócios. Por outro lado, estão tirando os investidores da zona de conforto, agora em busca de mais retornos, com a redução do custo de oportunidade. A procura por aplicações mais diversificadas se ampliou, e a demanda por crédito privado, que, historicamente, não tinha a preferência dos investidores brasileiros, surpreendeu.

Confirmam essa maior demanda os números da captação líquida dos fundos no semestre, conforme Boletim de Fundos de Investimento da Anbima (junho/2019). Os fundos de ações receberam R$ 23,5 bilhões de dinheiro novo no período, e os multimercado, R$ 17,6 bilhões. O consolidado de fundos de renda fixa não foi destaque, porém, analisando os números no detalhe, os fundos de crédito privado atraíram um capital significativo: R$ 21,2 bilhões.

Chamou a atenção também o crescimento dos fundos de debêntures incentivadas, com isenção de imposto de renda. E as debêntures foram o principal instrumento de captação no mercado de capitais. Em número de operações, as debêntures detiveram 35% do total, seguidas dos FIDCs (Fundos de Investimento de Direitos Creditórios), com 18%, de acordo com os dados do Boletim de Mercado de Capitais da Anbima (Junho/19)

A inclusão de crédito privado nas carteiras aponta para um início de mudança do apetite do investidor. Mas ainda há um longo caminho de aprendizado a percorrer. Para o brasileiro, renda fixa é sinônimo de aplicação que não oscila e que não apresenta variação negativa. Ele está acostumado com a caderneta de poupança, com os fundos DI e com os títulos do Tesouro atrelados à Selic.

O caso brasileiro é curioso. A renda fixa aqui é majoritariamente pós-fixada e acompanha um referencial, seja o CDI ou a Selic. Essa originalidade do nosso mercado reflete o histórico de inflação alta. Nos mercados desenvolvidos, a remuneração da renda fixa é predominantemente prefixada e, por isso, oscila consoante ao humor do mercado.

Enquanto o investidor, de modo geral, entende melhor o funcionamento do mercado acionário, dado que as variações negativas com os investimentos em ações são mais facilmente absorvidas, é difícil explicar, por exemplo, quando os fundos de debêntures incentivadas andam para trás. A dinâmica do mercado de crédito privado ainda não é familiar ao brasileiro.

Para elevarmos o nível de desenvolvimento do nosso mercado é importante que fique claro para o investidor que renda fixa também pode variar e apresentar retornos negativos em determinadas janelas de tempo. No entanto, não significa de modo algum que não sejam bons investimentos nem que devamos evitá-los.

Os resultados alcançados pelos fundos de crédito privado, incluindo os de debêntures incentivadas, chamaram a atenção pela excelente performance no semestre. Contudo, no cenário atual de alta liquidez, que, como falamos, pode ser bom para as empresas, isso também representa um duplo desafio de alocação – tanto para os gestores quanto para os investidores.

Os gestores precisam ter disciplina para negociar os papéis com os preços justos e os prêmios de risco compatíveis. Os investidores não podem concentrar os recursos em poucos ativos de crédito privado, nem em fundos da categoria com alta liquidez. Tampouco devem utilizá-los para aplicar as reservas de emergências. Investimentos em crédito privado devem ter horizontes de médio e longo prazos.

A carteira diversificada continua sendo a boa e eficiente estratégia. Os fundos são a alternativa mais indicada para o investidor começar, pois com suas carteira com dezenas de emissores, conseguem amortecer possíveis eventos não esperados e reduzir os impactos das variações.

Como estamos no início de um ciclo com implantação de medidas microeconômicas, o cenário é bastante favorável. Problemas na economia que venham a resultar em vulnerabilidade de empresas emissoras podem ser compensados pela abundância de liquidez no mercado e refinanciamento das mesmas.

Esta coluna nem de longe é um recado para evitar os investimentos em crédito privado. Muito pelo contrário! Quero ver o crescimento e a evolução do segmento. No entanto, como as características dessa classe de ativos não lhes conferem retornos isentos de variações, reforço a recomendação de diversificação, horizonte de investimento mais longo e tolerância com as referidas variações.

Coluna originalmente publicada em 26/7 no portal Valor Investe

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