O tapa na cara dos bancos europeus

A repreensão pública de Mario Draghi aos credores da Europa semana passada é mais importante do que o que o presidente do Banco Central Europeu fez por eles.

Os bancos da região se queixam há muito do aperto das taxas de juros negativas sobre seu lucro – revertendo seu modelo de negócios tradicional de emprestar dinheiro a curto prazo para emprestar a clientes a longo prazo. Mas há pouco que eles podem fazer para aliviar a dor: cobrar dos cidadãos comuns a manutenção de seus depósitos, por exemplo, é controverso e pode até ser ilegal. 

Enquanto reduzia as taxas em território negativo esta semana, o presidente do Banco Central Europeu mostrou que ouvira essas queixas, anunciando um pacote de medidas para poupar os bancos da dor das taxas negativas. Mas ele fez isso com uma mensagem direta: os bancos precisam arrumar suas próprias casas.

Embora haja uma aceitação crescente de que o setor será prejudicado por um período prolongado de taxas baixas, existe o perigo de que isso se torne uma desculpa para os executivos encolherem os ombros e aceitarem que os retornos não melhorarão. Isso seria prejudicial para a economia, diminuindo metas e proliferando uma visão pessimista do setor financeiro.

Draghi não mediu as palavras sobre o que os executivos dos bancos poderiam estar fazendo em vez de desabafar suas raivas. Os custos em alguns bancos europeus estão “completamente distantes”, disse ele, sem identificar nenhuma firma. 

Embora existam diferenças significativas entre os credores, as despesas consumiram mais de 70% da receita em alguns dos maiores bancos da França no ano passado, e ainda mais nas contrapartes alemãs – níveis que não são sustentáveis. O mais recente (e muito atrasado) esforço de recuperação do Deutsche Bank AG deve fazer com que sua relação custo-benefício finalmente caia de quase 94% no ano passado para 70% mais sustentável em três anos. No entanto, o CEO Christian Sewing está entre os que mais se expressam sobre as consequências de taxas negativas. 

A Societe Generale SA da França está estudando maneiras de economizar mais 600 milhões de euros em suas operações em Paris. O UniCredit SpA da Itália está considerando mais 10.000 cortes de empregos. Mais de uma década após a crise financeira, os bancos – quando pressionados – ainda parecem ser capazes de encontrar excesso de capacidade para cortar.

Draghi também deu alguns conselhos sobre o que deveria deixar os executivos mais animados: a tecnologia. Impedidos por sistemas antigos, muitas vezes sobrepostos, que continuam a absorver as despesas, os credores demoraram a pular na onda da digitalização.

Eles também se viram no centro dos escândalos de lavagem de dinheiro que custam multas. A tecnologia pode ajudá-los: os bancos holandeses estão se unindo para criar algoritmos para impedir o fluxo de fundos ilícitos, uma medida que outros credores poderiam copiar.

Certamente, investir em tecnologia e cortar gordura traz custos iniciais que podem corroer ainda mais os lucros a curto prazo, prejudicando os investidores. A oposição trabalhista também se mostrou difícil de superar. Quando o Deutsche Bank e o Commerzbank AG fizeram uma fusão no início deste ano, os sindicatos deixaram bem claro que não eram a favor das dezenas de milhares de cortes de empregos que seriam necessários.

Mas este medicamento é necessário – para o bem da economia europeia. Podemos estar chegando a um nível em que a escassa lucratividade do setor force alguns credores europeus a recuar, um problema em uma região em que as empresas ainda dependem de empréstimos bancários, em vez do mercado de títulos para a maior parte de seus empréstimos. Empréstimos de curto prazo mostram sinais de fraqueza, alertou Draghi. Essa é uma perspectiva preocupante.

A última mensagem do presidente do BCE não poderia ter sido mais clara. Os líderes da indústria devem  ouvir, senão podem sofrer mais do que um “tapa na cara” dado na última quinta-feira.

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Gustavo Guimarães Barbosa

Membro de finanças do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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