As Hélices da Economia Chilena

Milhões de pessoas estão nas ruas do Chile neste exato momento, fazendo parte da onda de protestos contra o governo. Apesar do estopim ter sido o aumento nas passagens de metrô em Santiago, a insatisfação popular não é de hoje, e está relacionada a diversos fatores históricos do país, que datam de antes da redemocratização em 1990. Para tentar explicar a atual crise se faz necessária uma volta ao passado.

Apesar da ditadura, o Chile viveu por muitos anos um grande período de prosperidade econômica, sobretudo após o governo Pinochet implementar pela primeira vez as políticas econômicas liberais da Escola de Chicago, que continuaram sendo seguidas mesmo após a redemocratização do país em 1990, e resultaram numa das nações mais estáveis e prósperas da América do Sul. No entanto, esses avanços na economia do país disfarçam as desigualdades marcantes na distribuição do crescimento, estando o país entre os mais desiguais do planeta.

Parte dos problemas do Chile passa também por uma dificuldade geral de sustentar taxas elevadas no crescimento da produtividade. Quando comparado ao Brasil e ao México, onde o crescimento da produtividade é próximo de zero, a produtividade chilena de 0,9% ao ano até parece alta, mas é ofuscada quando vemos a de outros países, como Coreia do Sul e Singapura. A estagnação da produtividade é também um indicador de desaceleração na economia de um país – e isso é, mais ou menos, o que vemos no Chile. Parte dessa desaceleração vem de uma dificuldade da América Latina de migrar de economias altamente dependentes da exportação agrícola e de commodities para economias mais baseadas na produção de produtos e tecnologia. Muitos assimilam o grande crescimento econômico das nações latinas na última década ao boom no preço das commodities, mas essas nações não conseguiram usar o dinheiro ganho nesse período para diversificar sua produção, passando agora por crises.

O país vem sofrendo também com as baixas no preço do cobre, que é a principal commodity exportada pelo Chile, sendo a estatal Codelco a maior exportadora do mundo quando se trata do metal. Parte disso se dá pelo aumento da produção chilena, que vai de encontro a demandas cada vez menores por parte de países como a China – por causa da guerra comercial travada com os Estados Unidos. Desde o começo da disputa tarifária entre as duas potências, o preço do cobre já viu baixas de mais de 20%, mas muitos investidores esperam que este panorama mude com a migração de muitos países para métodos de produção e distribuição de energia mais sustentáveis. Isso se dá pois o cobre é extremamente maleável e excelente condutor de eletricidade. Espera-se que com uma futura resolução entre Pequim e Washington os níveis de demanda voltem ao normal.

O Chile também tem atualmente a maior renda per capita da América Latina, mas, apesar disso, a população continua com dificuldades em relação aos gastos com saúde e educação, fazendo com que os cidadãos mais pobres vivam num estado de eterno endividamento. Uma das maiores reivindicações dos manifestantes é que essa melhora na economia do país seja sentida por toda a população, e não apenas pelas classes mais favorecidas. 

O presidente chileno Sebastián Piñera anunciou recentemente um pacote de medidas para tentar acalmar os ânimos e conter as manifestações, algo esperado de um político que quer se manter no cargo, mas as medidas não foram suficientes nem bem recebidas pelo povo. Segundo a população, nenhuma das medidas terá impacto imediato em suas vidas e ainda dependem de aprovação prévia no Congresso. Foi também anunciada uma reforma ministerial para atender às novas demandas populares.

O futuro do Chile é nebuloso, e estando relativamente longe das próximas eleições, que ocorrerão apenas em 2021, o Presidente Piñera ainda tem bastante tempo para se utilizar de medidas populistas e tentar uma reeleição. As promessas já começaram. O atual presidente, para tentar acalmar a população que estava indignada com vários assuntos, entre eles o sistema previdenciário do país,  anunciou que aumentaria aposentadorias e pensões em 20%, além de subsidiar aumentos no salário mínimo.

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Guilherme Barbosa

Membro de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

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