O mercado financeiro e o coronavírus – Parte 2

AS REAÇÕES DOS GOVERNOS 

Em tempos de coronavírus, os noticiários se tornam repletos de informações sobre saúde, como lavar corretamente as mãos, dicas do que fazer na quarentena, e lives e calls e  webinars de tudo quanto é assunto. Nessa confusão de mudança de rotina com hiperexposição a dados, proliferação de estudos e especialistas, é importante buscar compreender melhor a situação atual. Para isso se faz necessário discernir que há várias crises acontecendo simultaneamente, o que faz com que as respostas se tornem menos óbvias e tenham custos políticos, sociais e econômicos difusos. 1) Há, de fato, um problema de saúde pública em curso e um possível esgotamento de leitos hospitalares se o ritmo de contágio continuar acelerado; 2) teremos que lidar com os impactos econômicos nas famílias e empresas, decorrentes das medidas para a contenção do vírus; 3) os resultados combinados das duas primeiras se potencializam em uma crise no mercado financeiro, com os preços dos ativos despencando em virtude de uma desaceleração econômica local e global e,  principalmente, pela falta de previsibilidade de quanto tempo isso tudo vai durar.

Um caminho para buscar entender a situação é analisar as respostas dos governos. De forma geral, pelo mundo, ações dos governantes e do aparato burocrático estatal se concentram em medidas como lockdowns e restrições de trânsito de pessoas para contenção do contágio, aumentos dos gastos públicos e estímulos fiscais para auxiliar empresas e famílias mais vulneráveis e medidas dos Bancos Centrais para promoção de liquidez, como queda das taxas de juros e quantitative easing (QE), com o  objetivo de restaurar a funcionalidade dos mercados. 

Como o vírus é novo, e gerenciar uma pandemia é uma missão complexa, um outro padrão observado é que os países vão agindo por tentativa e erro, aprendendo com os seus pares que sofreram do surto primeiro. Uma das medidas que foi usada na China para tentar “achatar a curva de contágio” e aliviar a sobrecarga dos sistemas hospitalares foi o isolamento social, com o fechamento do comércio e das escolas e a limitação de viagens, fazendo milhões de pessoas ficaram em quarentena em suas casas. Essa foi (e ainda é aqui no Ocidente) uma escolha difícil e polêmica que implica impactos econômicos severos muito pouco quantificáveis até o momento. Diversos países adotaram essa abordagem, inclusive o Brasil, os EUA e vários da Europa, com períodos e abrangências diferentes. 

Na mesma linha de observar a condução de políticos em outros países, a Coreia do Sul adotou testes em massa. O governo sul-coreano optou por testar o máximo de pessoas e isolar apenas os casos confirmados. Isso fez com que o número de casos lá tenha explodido — visto que inclusive os casos leves e assintomáticos foram identificados — mas com quantidade de mortes reduzida — a taxa de letalidade por lá não passa de 1,4%. Essa abordagem, porém, depende da disponibilidade dos kits de testes e de uma logística de aplicação e processamento dos exames que o Brasil, até o momento, não tem. 

Essas duas abordagens principais do ponto de vista da saúde se tornaram uma grande disputa de narrativas, tanto no âmbito público quanto privado. Com um grupo defendendo o isolamento vertical e outro o horizontal, as acusações mútuas saíram da questão sanitária  e se tornaram uma troca de farpas sobre se a economia vale mais que vida das pessoas ou se o remédio está sendo pior que a doença. Essa discussão inicial, contudo, se arrefeceu, ao menos publicamente, o que é importante, visto que a quarentena e o isolamento já são uma realidade e ficar dispersando o foco com elucubrações de como poderia ter sido feito tem poucos efeitos práticos quando se está vivendo no olho da crise.    

Não sabemos se a quarentena vai durar mais duas semanas ou três, ou meses à frente. Em quanto tempo voltaremos à rotina do trabalho? Quando  a demanda vai voltar — e será que vai voltar da mesma forma que antes? A grande dificuldade da situação atual é justamente tomar decisões com informações insuficientes e sem muitas perspectivas. A incerteza quanto ao futuro, contudo, não pode paralisar os tomadores de decisão que precisam enfrentar os impactos imediatos e reais no emprego e renda das pessoas. 

Buscando olhar o copo meio cheio, o Brasil, nesta crise, está macroeconomicamente melhor que em momentos anteriores: estamos com a inflação controlada, a taxa de juros na mínima histórica e a situação do câmbio relativamente tranquila, com uma quantidade considerável de reservas internacionais. Essa conjunção de fatores permite que o Banco Central e a administração pública consigam fazer uso de mais ferramentas de estímulos. Com o medo reduzido de a inflação sair do controle no curto prazo, é possível injetar mais liquidez no sistema. Com os juros caindo desde o ano passado, as empresas, em grande parte, já haviam renegociado suas dívidas, diminuindo o nível de alavancagem. E do ponto de vista sistêmico, mesmo com o dólar na faixa dos R$ 5,00, há um colchão de reservas acumuladas que dá mais tranquilidade à autoridade monetária brasileira.

No mundo como um todo, as políticas monetárias reagiram de forma mais rápida, com os países reduzindo ainda mais as taxas de juros. O expoente desse tipo de resposta foi o Federal Reserve (Fed – Banco Central dos EUA), que cortou duas vezes em menos de 15 dias, de surpresa, a taxa básica. O primeiro corte foi de 0,5 ponto percentual, no dia 3 de março, e a segunda redução, de 1 ponto, em um domingo, 15 de março. A faixa de juros americana está hoje entre 0 e 0,25%. No Brasil, o Copom, em sua reunião padrão no dia 18 de março, cortou a meta da taxa Selic de 4,25% ao ano para 3,75%. Os bancos centrais de Europa, Inglaterra, China e diversos outros lugares também seguiram essa linha. 

Ainda na alçada do Banco Central, a estabilidade do sistema financeiro é uma questão primordial. A injeção de liquidez está em torno de R$ 1,2 trilhão, com várias medidas sendo tomadas de forma simultânea. Houve a redução do compulsório bancário de recursos a prazo de 25% para 17%. O compulsório é um percentual dos depósitos, à vista, a prazo e sobre a Poupança, que as instituições financeiras devem guardar no Banco Central. Cada uma dessas três modalidades de recolhimento compulsório cumpre uma função específica no sistema e é usada não apenas como instrumento de política monetária mas também cumpre uma função macroprudencial importante. Especificamente em relação aos compulsórios sobre recursos a prazo, que incidem principalmente sobre aplicações em CDBs/RDBs, a autoridade monetária flexibilizou essa alíquota de forma temporária, buscando coordenar mecanismos de redistribuição de liquidez pelo sistema de forma que os bancos passem a ter mais recursos disponíveis para emprestar.

A redução do compulsório veio junto com a introdução de duas Linhas Temporárias Especiais de Liquidez, que permitem que o BC conceda empréstimos às Instituições financeiras com garantia em Letras Financeiras assim como em Debêntures. Dessa forma, além de conseguir direcionar o crédito para os bancos, que por sua vez distribuem ao demandante final, o sistema se beneficia com um aprimoramento do mercado secundário de títulos privados, ainda pouco desenvolvido no Brasil.

Aumentar a liquidez da economia é importante, pois a interrupção do faturamento de diversas empresas em virtude das quarentenas em massa coloca em risco, principalmente, pequenos e médios estabelecimentos, que passam a enfrentar dificuldades em relação a capital de giro e pagamento da folha. Com essa preocupação em mente, todos os dias novas medidas são anunciadas, mas a principal foi o decreto de estado de calamidade pública. Com ele, houve a possibilidade do afrouxamento da meta fiscal, ou seja, o governo não precisa cumprir o teto dos gastos. Isso possibilita uma expansão das despesas com saúde, além de permitir criar uma rede de apoio à população mais vulnerável, trabalhadores informais e autônomos, dar apoio financeiro aos estados e socorro a setores mais afetados.

Do ponto de vista trabalhista, há um medo generalizado de que, com a redução da demanda de alguns setores, as empresas não consigam pagar seus funcionários, e isso gere tanto quebradeira quanto desemprego. Para tentar minimizar este possível efeito, o governo vem atuando em três frentes: 1) flexibilização das regras trabalhistas, incluindo o home office como sistema de trabalho e antecipação de férias; 2) adiamento do recolhimento de impostos e do FGTS e 3) programas de auxílio direto à população.

Nessa linha direta de apoio às camadas mais vulnerárias, a liberação do auxílio emergencial de R$ 600,00 para informais, desempregados ou autônomos foi um passo importante. Em um esforço conjunto do governo federal com a Caixa, o benefício depende de um cadastro em um aplicativo de celular desenvolvido para essa finalidade. Até o dia 11 de abril, mais de 32,6 milhões de brasileiros já estavam com cadastros finalizados para receber o coronavoucher. Além disso, o governo também liberou novos saques das contas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de até R$1.045,00, o que deve impactar mais de 60 milhões de brasileiros e injetar R$ 32 bilhões na economia nos próximos meses. 

Um ponto interessante é enfatizar o caráter temporário das medidas já anunciadas. Em sua maior parte os benefícios se estendem por três meses ou enquanto durar o estado de calamidade. As medidas do Banco Central possuem também um calendário de acompanhamento com prazos definidos para que o recursos liberados em caráter emergencial não se tornem um custo insustentável para a máquina pública no futuro.  

Vale dizer que o que foi  destacado até o momento foram as respostas do governo federal à situação. Nos níveis estaduais e municipais, o contexto é um pouco mais complexo com a autonomia concedida pelo sistema federativo sendo respeitada. 

No mercado financeiro, além de acompanhar as medidas do governo para o alívio da situação econômica no Brasil, precisamos ficar atentos também às medidas que os outros países estão tomando. No geral, o mundo está usando as mesmas ferramentas conhecidas de políticas fiscal e monetária, mas em uma escala muito maior que em outras crises. O Fed, Banco Central americano, além do corte de juros que já mencionamos, anunciou um pacote de US$ 2,3 trilhões para socorrer estados e pequenas e médias empresas. Na Europa os estímulos econômicos já somam quase 2 trilhões de euros. Na China, o governo também está executando medidas expansionistas. A dependência de cadeias globais de produção, do ponto de vista da oferta, e da recuperação do mundo, do ponto de vista da demanda, faz com  que o desempenho de diversos setores no Brasil fiquem sensíveis ao noticiário externo também.

Por fim, o que temos até o momento são, em sua maior parte, medidas concretas dos Bancos Centrais, que precisam garantir a funcionalidade do sistema financeiro para que este possa ser usado como canal de distribuição e crédito às empresas e famílias necessitadas. Com relação à contenção do vírus, as medidas de isolamento foram dadas e as pessoas já estão em quarentena. A discussão sobre isolamento vertical ou horizontal já não cabe mais nesse momento, e é preciso pensar para frente, sobre como e quando será a “volta à normalidade”. Acerca dos gastos públicos, as sinalizações iniciais vão ganhando tração e se consolidando em medidas importantes como a liberação do coronavoucher e de novos saques do FGTS. Contudo, os custos e desembolsos efetivos do governo ainda são difíceis de serem calculados, e o impacto na economia também está no campo do guesstimate, ou seja, estimativas aproximadas de algo do qual não sabemos ainda a real extensão. De qualquer modo, os governos do mundo todo estão buscando equilibrar no ar os pratos econômico, social e político ao mesmo tempo, em um momento muito atípico. 

Pela singularidade dessa crise, seus impactos sobre os ativos financeiros também não seguem os padrões da racionalidade econômico-financeira à qual estamos acostumados. E isso vem gerando movimentos muito acentuados de quedas e altas em ativos de Renda Variável, mas também os mercados de Renda Fixa estão com uma volatilidade incomum. Na próxima semana buscaremos, justamente, entender o que desencadeou esses movimentos na Renda Fixa e por que mesmo investimentos conservadores podem ter meses negativos. 

Autoria: Lorena Laudares 

2 comentários em “O mercado financeiro e o coronavírus – Parte 2

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