Eleições no Banco Central Europeu: uma dinâmica peculiar

Depois de mais de 7 anos e meio como vice presidente do Banco Central Europeu (BCE), o português Vítor Constâncio recebeu dois nomes para concorrer às eleições para substituí-lo em maio, quando seu mandato encerra. A Espanha indicou Luís de Guindo, ministro das economias espanholas, enquanto a Irlanda designou seu governador do banco central, Philip Lane. Geralmente, nomeações para a vice presidência costumam ter importância secundária, focando-se no cargo de presidente. Todavia, neste caso, observa-se uma maior relevância, tendo em vista que tal nomeação terá um impacto mais elevado nas eleições que substituirão Mário Draghi, atual presidente do BCE, em 2019.

As eleições funcionam de forma em que os países interessados nomeiam seus candidatos e enviam seus nomes para o atual vice presidente. Neste ano, o prazo para este envio foi até o dia 07 de fevereiro. Em seguida, membros do Eurogrupo, associação a qual reúne ministros das finanças de diversos países da União Europeia (UE), irão votar no dia 19 do mesmo mês e haverá uma entrevista no Parlamento Europeu. Por último, o vice-presidente será anunciado na cúpula da UE no dia 22 de março.

Vale destacar que há um objetivo do BCE em manter um equilíbrio entre o norte e sul europeu, assim como preservar a indiferença política. Atualmente, Mário Centeno é o presidente do Eurogrupo. Aliado ao Partido Socialista português, diferentemente da maioria dos demais membros, ele mantém um certo balanceamento. Tal posição é essencial para a estabilidade e para o futuro da UE, de modo que vigia novas regras que podem ser aplicadas a bancos europeus, por exemplo. Além disso, como possui um grande papel na decisão dos altos cargos no BCE, serve também como um mediador de diferenças entre os países membros da UE. Desse modo, o vice presidente, que costuma ser de um país considerado como pequeno, deixando a presidência para um país grande, serviria como uma balança para nomeação do substituto de Draghi.

Apesar de lhe faltar experiência em banco central, Luis de Guindos foi considerado um dos favoritos para o cargo (antes mesmo de nomearem os candidatos). Discursando de Madri, Guindos fez menção aos seus anos de ministro das economias na Espanha, onde supervisionou a “limpeza” do setor bancário com o fundo de recuperação (bailout), o qual foi forçado a requerer em 2012. Também afirmou que possui apoio da maioria das nações. Entretanto, o Parlamento Europeu demonstrou preocupação em eleger Guindos por se tratar de um ex ministro, lembrando que o BCE deve se manter independente de viés políticos.

Todavia, a França, assim como outros países do sul europeu, se posicionou contrária a Guindos, quem vem se alinhando com a ideologia dura alemã e poderia impulsionar Jens Weidmann, presidente do Bundesbank (Banco Central da Alemanha), para substituir Draghi. Vale ressaltar que o presidente francês, Emmanuel Macron, objetiva uma reforma na UE que visa unificar ainda mais a interação dos países membros e criar um fundo comum de investimento, algo que a Alemanha se mostrava contrária, por se tratar do país europeu com melhor desempenho e recuperação econômica desde a crise financeira e, desta forma, seria requisitada a depositar no fundo e auxiliar os demais integrantes.

No entanto, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, com seu partido conservador, União Democrata Cristã (CDU), conseguiu formular um acordo de coalizão com o centro-esquerdista, Partido Social-Democrata (SPD), cujo líder é Martin Schulz, depois de mais de 4 meses sem um governo formado. Apesar do escopo do pacto amenizar as incertezas políticas no país, tendo em vista que membros do SPD ainda terão que dar seu aval via votos, o mesmo não foi recebido positivamente pela maioria, uma vez que Merkel conferiu o ministério das finanças para o SPD. Tal ponto se torna interessante de se observar pela fato do SPD ser a favor da integração da UE e às reformas propostas por Marcon, algo que o CDU, juntamente com o ex ministro das finanças, Wolfgang Schäuble, eram contrários.

Philip Lane, altamente respeitado como economista, além de ser o presidente do Banco Central irlandês desde 2015, quando a Irlanda estava se recuperando da sua crise de dívida soberana, será a primeira tentativa do país para um cargo alto desse gênero. Caso Lane seja nomeado vice presidente do BCE, a dinâmica norte-sul da Europa poderá ser desbalanceada, de modo que teria mais oportunidade para uma competição para a presidência do BCE. De acordo com ministro das finanças irlandês, Paschal Donohoe, Lane possui aliados, mas que caso o mesmo não seja eleito, seu governo avaliaria futuras opções no BCE, de modo que, desde quando assumiu o cargo de presidente do BC irlandês, era mencionado como um forte candidato para substituir Peter Praet, chefe economista do BCE, em 2019, cargo que também poderia aglomerar caso vire vice presidente.

Além disso, Sylvie Goulard, ex membro do Parlamento Europeu, foi nomeada como vice governadora do Banco da França e é vista como uma possibilidade para suceder Benoit Coeure, outro membro do conselho do BCE juntamente com Draghi e Praet, em janeiro de 2020. Todavia, somando Goulard e de Guindos no conselho, há uma preocupação para com o mesmo que poderia ser composto cada vez mais por políticos ao invés de economistas experientes e presidentes de bancos centrais.

O Bank of America Merrill Lynch apontou que, até final de 2019, 3 de 4 posições no conselho do BCE, as quais terão eleição, são de membros considerados como de postura “dovish”, ou seja, menos rígidos contra a inflação. Assim, com a saída destes, espera-se que abra-se espaço para integrantes centristas ou “hawkish” (oposto ao dovish, mais agressivos quanto ao combate à inflação, geralmente defendendo uma elevação na taxa de juro). Vale destacar neste comentário que o BCE vem tomando medidas de aperto monetário depois de anos de estímulos, tendo em vista a diminuição e prazo para encerrar a política de compra de ativos pelo banco supracitado até setembro deste ano. Neste caso, Lane é considerado como centro-“dovish”, enquanto de Guindos centro-“hawkish”.

Muitas mudanças vêm ocorrendo recentemente a medida que o mundo, de modo geral, vem se recuperando da crise financeira de 2008. Inclusive, as recentes quedas nas bolsas do mercado de capitais com investidores observando e especulando altas no mercado financeiro influenciada pela taxa de juros (ferramenta de instrumental de bancos centrais para reduzir a inflação, por exemplo). Portanto, torna-se de grande importância observar os líderes que ditarão as políticas monetárias no mundo e, na Europa, como ficará o cenário político e econômico na Alemanha, a qual poderá sofrer grandes alterações devido a situação  do ministério das finanças.

 

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Filipe Merian

Diretor de Projetos e Chefe de Análise Macroeconômica do CEMEC, empresa júnior vinculada ao IBMEC, que tem como proposta principal realizar estudos e pesquisas sobre o mercado financeiro.

 

 

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